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Motivação não se impõe: constrói-se no Círculo do Cuidar

Colunista: Angelo Dias

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Se janeiro abriu 2026 com um alerta estratégico — quem não pode ser o maior precisa ser o melhor em acolher, orientar e acompanhar — fevereiro aprofunda uma pergunta inevitável:

Por que alguns alunos permanecem e outros desistem, mesmo com boa estrutura, bons equipamentos e profissionais qualificados?

A resposta passa, necessariamente, pela motivação. E não por frases prontas ou estímulos momentâneos, mas por processos bem compreendidos pela ciência do comportamento humano.

Quando olhamos para os principais modelos teóricos da área, fica evidente que o Círculo do Cuidar, apresentado em nosso livro “Mercado do bem-estar: acolher, orientar e acompanhar”, não é apenas uma proposta de gestão humanizada. Ele é um modelo coerente com o que a ciência já demonstrou sobre aderência ao exercício físico.

1. Modelo Transteórico: entender antes de tentar mudar

Prochaska e Marcus (1994) demonstraram que a mudança de comportamento acontece em estágios, e não por decisão instantânea. No contexto do exercício físico, os principais estágios são:

  • Pré-contemplação: quando a pessoa não tem a menor intenção em praticar atividade física – o sedentário assumido.
  • Contemplação: quando o indivíduo começa a cogitar a possibilidade de um dia começar. Exemplo: depois de ouvir os fortes argumentos do Dr. Dráuzio Varela sobre os benefícios da prática regular e orientada da atividade física para a saúde.
  • Preparação: depois de ser impactado pelas orientações do renomado médico, ele compra um par de tênis e começa a procurar no Google os preços das academias mais próximas. Mas ainda não começou a se mexer.
  • Ação: começa a caminhar ou realiza os primeiros treinos na academia. Ações que ainda não completaram seis meses de frequência regular.
  • Manutenção: quando o praticante incorpora a atividade física em sua rotina. Segundo os pesquisadores, isso acontece após seis meses de treinos regulares.
  • Recaída: os autores apresentam ainda esse momento que pode acontecer em qualquer fase do processo de mudança de comportamento, em especial na ação ou manutenção. Lembrando que a recaída para um estágio anterior ou para o sofá pode acontecer por perda de motivação (multifatorial) ou por necessidade (mudança de cidade, estudar para o vestibular, alteração no horário de trabalho, dentre outros).

O erro mais comum das academias é tratar todos os alunos como se estivessem no mesmo estágio: prontos para agir, performar e evoluir rapidamente.

O Círculo do Cuidar começa justamente onde o modelo transteórico exige: no acolhimento. Acolher é identificar o estágio do aluno, respeitar seu momento e ajustar a linguagem, o treino e as expectativas.

Sem isso, a orientação vira pressão. E a pressão acelera a desistência.

2. Teoria da Autodeterminação: o tipo de motivação importa

Ryan e Deci (2000) mudaram a forma como entendemos motivação ao mostrar que nem toda motivação é igual.

Eles diferenciam:

  • Motivação extrínseca (fazer por obrigação, estética ou pressão externa)
  • Motivação intrínseca (fazer porque faz sentido, dá prazer e significado)

No ambiente das academias, muitos alunos entram movidos por fatores externos. O problema é tentar mantê-los apenas por esses mesmos estímulos.

O Círculo do Cuidar atua exatamente na transição da motivação extrínseca para a autodeterminada, por meio de:

  • Orientação clara e personalizada.
  • Acompanhamento contínuo.
  • Relação de confiança com o professor.

Quando o aluno entende o processo, percebe evolução e se sente respeitado, o exercício deixa de ser obrigação e passa a ser escolha.

3. Necessidades Psicológicas Básicas: o coração da permanência

A Teoria da Autodeterminação se sustenta em três Necessidades Psicológicas Básicas (NPB):

Autonomia

O aluno precisa sentir que participa das decisões, entende o treino e tem voz ativa no processo.

O Círculo do Cuidar promove autonomia quando orienta, explica e negocia metas reais.

Competência

O aluno precisa perceber que é capaz, que evolui e que o desafio é adequado ao seu nível.

O acompanhamento constante com progressão pedagógica e fisiológica ajusta o treino para gerar sucesso progressivo, não frustração.

Vínculo

O aluno precisa sentir pertencimento e conexão humana.

O acolhimento e a presença ativa do professor constroem esse vínculo diariamente.

Quando essas três necessidades são atendidas, a permanência deixa de depender de promoções e passa a existir por gerar valor percebido para o cliente.

4. Ambiente complexo de prática: a academia como sistema vivo

Thiago Sousa Mathias (2019) afirma que o Ambiente Complexo de Prática é a ampliação do espaço afetivo-social dos ambientes nos quais são desenvolvidas as práticas de atividade física em suas diversas naturezas e características. As características afetivas e as relações estabelecidas em uma determinada aula (Pilates, Musculação, Dança ou Hidroginástica) deverão permanecer no conjunto de atividade do dia a dia das pessoas.

O autor nos ajuda a compreender a academia não como um local de execução de exercícios, mas como um ambiente complexo de prática, onde múltiplos fatores interagem:

  • Emoções.
  • Relações sociais.
  • Histórias pessoais.
  • Cultura organizacional.
  • Estilo de liderança.

Nesse ambiente, não basta ter bons profissionais isolados. É preciso coerência sistêmica.

O Círculo do Cuidar funciona como um organizador desse ambiente complexo, alinhando pessoas, processos e propósito em torno do cuidado contínuo.

Academias que ignoram essa complexidade tratam a evasão como “falta de comprometimento do aluno”. Academias que a compreendem assumem sua responsabilidade no processo.

O Círculo do Cuidar como síntese prática da ciência

Quando conectamos essas teorias, o recado é claro:

  • Pessoas mudam em etapas.
  • A motivação precisa ser construída com as pessoas.
  • Autonomia, competência e vínculo são inegociáveis.
  • O ambiente influencia tanto quanto o treino.

O Círculo do Cuidar — acolher, orientar e acompanhar — não é um conceito abstrato. Ele é a tradução prática dessas evidências científicas para a cultura da academia.

Quem ignora isso continuará lutando contra a evasão; quem aplica isso transforma a experiência do aluno — e o futuro do negócio.

Para o gestor, fica o convite

A pergunta que fica para o gestor em fevereiro de 2026 é simples e profunda:

Sua academia está organizada para treinar corpos ou para cuidar de pessoas em processo de mudança?

Porque motivação não se impõe.
Ela se constrói.
E se sustenta no cuidado.

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