Sempre costumo brincar que o comportamento humano não é nada fácil se você trabalha nos setores da saúde que usam exercícios físicos para reabilitação ou prevenção de doenças e lesões.
Muitos dizem que não procuram se exercitar porque estão cansados ou sem dinheiro, mas vamos ser sinceros: para a cervejinha e paro tratamento no cabelo, o cartão de crédito parcela sem dificuldades. E o cansaço, outro vilão, não é verdade? Duvido que essa mesma pessoa não iria a um show do Sorriso Maroto e passaria mais de 6h em pé sem reclamar. “Já era, o nosso amor, já era…”
Será que é realmente falta de oportunidade financeira ou cansaço? Diante de tantos atendimentos e de escutar tantas histórias, vos digo que todo comportamento e prioridade de vida são construídos pela necessidade e educação sobre suas consequências. Eu, por exemplo, jamais trocaria meu cuidado com o futuro por um corte de cabelo, barzinho ou similares: meus 3 anos de mestrado estudando sobre envelhecimento não me deixariam…
Mas vamos falar sobre a maioria. E aqui no Brasil, a maioria não tem educação sobre o envelhecimento ou até sobre o corpo humano. É impressionante como as pessoas têm o poder de deixar para depois uma reabilitação de uma lesão ou ainda realizar um trabalho preventivo com exercícios, mas não consegue de jeito nenhum abrir mão de algo da estética ou da diversão, como ir a um show ou até fazer o cabelo ou as unhas.
Porém, entretanto, contudo e todavia, existe um nicho no mercado perfeito para a proposta dos estúdios de Pilates. Um nicho que não teve educação corporal e de saúde, mas sente na pele todos os percalços da falta de informação e atitudes de cuidado ao corpo: o idoso!
A dificuldade de atingir o público jovem
O jovem de hoje está cada vez mais sedentário. A tecnologia favorece o conforto, os impostos aumentam, e com isso, o jovem precisa e consegue se manter trabalhando mais horas por dia. Esse mesmo público já começa a sentir dores desde cedo. Conheço pessoas com menos de 30 anos que sofrem com seus corpos como se fosse uma pessoa de 60 anos devido à sobrecarga do trabalho e sedentarismo.
Pensando de maneira superficial, esses jovens até parecem bons clientes para o Pilates, já que sentem dores. Porém, o seu corpo ainda consegue suportar razoavelmente essas desconformidades e se manter ativo. Isso faz com que o jovem opte em usar o pouco dinheiro que sobra após pagar as contas com diversão (a cervejinha ou o cabelinho servem como um brinde após tanto trabalho, o famoso eu mereço!) ao invés de tratar os problemas que lhe causam dores ou ainda se cuidar para o envelhecimento. É o famoso “empurrando com a barriga”.
Isso nos torna seres humanos cada vez mais coniventes com a naturalização dos alimentos rápidos, práticos e péssimos para a saúde e também para o pensamento de que não vale o esforço de ir se exercitar após uma jornada de trabalho. Parece até loucura, mas é a realidade da maioria dos países.
“Ah, mas existem os jovens que viram exceção e se exercitam”. Sim, mas esse público está de olho na estética. E para manter um corpo estético com os níveis de hipertrofia que o Instagram impõe, é preciso se exercitar de 4 a 6 dias para evitar o princípio da reversibilidade. No Pilates, ter essa frequência semanal irá te custar no mínimo R$ 400,00 em estúdios menores, enquanto uma academia de bom porte no seu bairro custa 150,00. O jovem vai buscar o mais barato, pode ter certeza! E o mais barato não é o Pilates.
A facilidade de atingir o púbico idoso
Já o público idoso, é aquele jovem ali de cima, que fez um monte de besteira na juventude, não cuidou nem da alimentação e nem do seu corpo. Além das dores nos joelhos e na coluna, ainda chega para nós com uma coleção de problemas de saúde, como diabetes, hipertensão, insuficiência cardíaca…
Esse público sabe na pele o que é sentir dor todo dia e o preço que é não se cuidar. Está nesse momento pagando o preço da sua juventude mal orientada e aprendeu do pior jeito que se não cuidar agora, os problemas de saúde e as dores só irão piorar.
Pensa comigo: o jovem até tem “escolha” porque o corpo mesmo com dor ainda se sustenta funcionalmente, mas será que o seu João e a dona Maria conseguem se manter funcionando com todas as repercussões do envelhecimento se manifestando? A resposta é bem obvia: Não!
Dona Maria e seu João não têm escolha. Entre um churrasquinho e um Pilatezinho, melhor ir pro Pilates porque quando param, as dores voltam. Entre alongar os cabelos com uma escova ou alongar os músculos, dona Maria vai preferir alongar os músculos no Pilates porque se não, as dores voltam. Entre tomar uma cervejinha e realizar exercícios posturais no Pilates, seu João vai preferir o Pilates porque a cerveja já não é mais uma necessidade para ele.
“Ah, mas a academia é mais barata!” E é aí que está a expertise de investir em um público que não tem escolha em te escolher. Na academia são mais de 20 alunos para cada professor e no Pilates o foco é total no aluno com apenas 3 a 5 alunos por horário. Fica muito mais fácil trabalhar com públicos especiais no Pilates do que na musculação.
Então, se seu objetivo é fidelizar clientes, vale muito a pena se especializar em certos nichos. E o do envelhecimento é apenas um deles!