A prevenção de acidentes aquáticos depende não apenas da capacidade de nadar, mas também da percepção de risco e de conhecimentos básicos relacionados à segurança no meio líquido. A World Health Organization (WHO) acrescenta que o afogamento constitui um importante problema de saúde pública evitável, cuja prevenção depende da adoção de múltiplas estratégias complementares, incluindo intervenções ambientais, preparação para emergências e, sobretudo, a presença de supervisão adequada1.
De fato, a prevenção continua sendo a intervenção mais eficaz. É necessário enfatizar que a medida preventiva primária de contar com supervisão adequada reduz significativamente o risco de morbidade e mortalidade relacionadas ao afogamento2.
A professora de natação Luciane Restier, que passou a atuar no Projeto Natação + Segura em 2025, relata que seu filho se afogou quando ele tinha 2 anos e que nunca compreendeu como as pessoas que estavam próximas à piscina não perceberam a situação nem conseguiram evitar que o acidente acontecesse: “O que aconteceu com meu filho não quero que aconteça com mais ninguém.”
Uma publicação da renomada revista The Lancet destaca que a falta de habilidades aquáticas e a ausência de supervisão colocam crianças e jovens em elevado risco de afogamento3. Bebês e crianças nunca devem ser deixados sem supervisão perto da água2. Pesquisadores acrescentam que não basta apenas “olhar”; é necessário supervisionar de forma atenta2 e eficaz para prevenir afogamentos4.
A palavra supervisão vem do latim supervisio, formada pela junção do prefixo super- (que significa “sobre”, “acima” ou “além”) com visio ou visionis (que significa “visão” ou “ato de ver”). Etimologicamente, o termo significa “visão sobre” ou “olhar de cima”. Historicamente, essa junção de palavras gerou a ideia de uma visão panorâmica.
Supervisionar precisa ser entendido como uma ação de acompanhar, orientar e inspecionar a execução de todas as movimentações no ambiente aquático, garantindo que sejam realizadas de acordo com as normas de utilização da piscina, praia, rio, lago, banheira etc5.
Grande parte das ocorrências envolvendo crianças acontece em situações cotidianas, muitas vezes em ambientes familiares, nos quais breves interrupções da supervisão podem aumentar significativamente o risco de afogamento6. Nesse contexto, a participação ativa dos pais e responsáveis assume papel fundamental na construção de ambientes aquáticos mais seguros6,7.
Essa compreensão também encontra respaldo em recentes decisões do Poder Judiciário brasileiro. Em sentença proferida pela Vara Cível de Goianápolis (GO), envolvendo o afogamento de uma criança de três anos em uma propriedade rural, o magistrado reconheceu que a breve interrupção da supervisão pelos responsáveis contribuiu para o acidente, mas destacou que a ausência de barreiras físicas de proteção ao redor da piscina representava um risco previsível e evitável. A decisão atribuiu responsabilidade concorrente entre os pais e o proprietário do imóvel, enfatizando que a prevenção do afogamento não depende exclusivamente da vigilância dos cuidadores, mas também da adoção de medidas estruturais de segurança capazes de impedir o acesso não supervisionado de crianças à água8.
A importância da educação em segurança aquática
Diante dessa realidade, torna-se importante que programas de ensino da natação contemplem conteúdos voltados a orientações para as famílias durante o processo de aprendizagem. Essa perspectiva encontra respaldo em iniciativas internacionais recentes, como as recomendações da Comissão de Afogamentos do Estado de Nova Iorque, que defendem a inclusão obrigatória da educação em segurança aquática nos currículos escolares, inclusive por meio de atividades desenvolvidas fora do ambiente aquático. Tal proposta reforça o entendimento de que a prevenção do afogamento envolve não apenas a aprendizagem de habilidades motoras na água, mas também a construção de conhecimentos, atitudes e comportamentos preventivos relacionados à segurança aquática7.
A participação dos responsáveis nesse processo contribui para o fortalecimento do aprendizado de todo o núcleo familiar. À medida que passam a compreender melhor as particularidades do ambiente aquático, tornam-se mais preparados para realizar escolhas conscientes em situações de lazer, viagens e atividades recreativas envolvendo água. Essa perspectiva dialoga diretamente com o conceito de supervisão qualificada discutido por pesquisadores Estadunidenses, que enfatizam que supervisionar não consiste apenas em estar presente, mas também em ser capaz de reconhecer riscos e agir de forma adequada6.
Em muitos casos, a criança inserida em atividades aquáticas aprende noções de flutuação, adaptação ao meio líquido e comportamento seguro na água, enquanto pais e responsáveis nem sempre têm acesso às mesmas oportunidades de formação em segurança aquática. Iniciativas recentes de prevenção5 têm destacado a importância de ampliar o acesso de pais, responsáveis e cuidadores a conhecimentos relacionados à prevenção do afogamento e à segurança aquática7. Como consequência da ausência desses conhecimentos, podem surgir respostas inadequadas ou atrasos na adoção de medidas de auxílio diante de um eventual acidente, comprometendo a segurança da vítima.
Entre os conhecimentos preventivos relevantes para a segurança aquática destacam-se as noções relacionadas ao reconhecimento de situações de risco, à solicitação de ajuda e às formas seguras de assistência em emergências9. Diversas estratégias podem ser aprendidas e utilizadas nesse contexto. Dentre elas, destacam-se ações de prevenção, enfatizando, entre outros aspectos, o fornecimento de flutuação à vítima e a redução da exposição do socorrista ao risco.
Objetos flutuantes disponíveis no ambiente podem representar importantes recursos em situações de emergência quando utilizados adequadamente, contribuindo para a sustentação da vítima na superfície e para a realização de um auxílio mais seguro. Da mesma forma, conhecimentos básicos sobre salvamento e autossalvamento favorecem respostas mais organizadas diante de situações críticas, reduzindo atitudes impulsivas e ampliando as possibilidades de preservação da vida até a chegada de auxílio especializado1.
Ensinando pais e responsáveis
Nesse sentido, ampliar o ensino de segurança aquática também para pais e responsáveis representa uma importante estratégia preventiva e educativa. Na metodologia Natação + Segura, desenvolvida por pesquisadores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), sob a coordenação do professor Marcelo Barros Vasconcellos, os pais são considerados participantes ativos do processo educativo.
Enquanto as crianças aprendem, como um dos pilares atitudinais, que não devem entrar em uma piscina sem a presença de um adulto responsável, os pais têm acesso às aulas e são convidados a participar de determinadas atividades pedagógicas juntamente com seus filhos. Além disso, recebem regularmente informações complementares por meio de correio eletrônico e grupos de comunicação instantânea, como o WhatsApp.
Esses materiais incluem conteúdos educativos, textos de divulgação científica e artigos relacionados aos objetivos conceituais e atitudinais trabalhados em cada aula, fortalecendo a integração entre a aprendizagem da criança e a participação da família na promoção da segurança aquática.
A metodologia compreende a aproximação entre o ambiente de ensino e a família como um elemento relevante para o processo de aprendizagem, favorecendo a coerência das experiências educativas em diferentes contextos de convivência da criança. Paralelamente, essa estratégia amplia o alcance dos conteúdos abordados, possibilitando que conhecimentos relacionados à segurança aquática e à prevenção do afogamento sejam compartilhados com familiares e outros membros da rede social dos alunos, potencializando seu impacto educativo para além do espaço formal de ensino.
A metodologia promove a compreensão de que a supervisão eficaz em ambientes aquáticos requer atenção contínua, proximidade física e capacidade imediata de intervenção. Nesse contexto, os pais são orientados sobre situações frequentemente associadas à redução da vigilância, como o uso de telefones celulares, conversas prolongadas, a transferência implícita da responsabilidade para outros adultos presentes ou a confiança excessiva em dispositivos flutuantes.
Também são discutidos os riscos decorrentes da falsa percepção de segurança em locais rasos ou aparentemente controlados, bem como a possibilidade de quedas, escorregões, impactos e outros incidentes que podem preceder ou contribuir para situações de emergência. A abordagem busca desenvolver uma compreensão mais realista dos riscos presentes em ambientes aquáticos e fortalecer práticas de supervisão adequada e preventiva.
A participação dos pais é incentivada ao longo de todo o processo educativo, tanto por meio da observação das aulas quanto pela integração em atividades complementares propostas pela metodologia. Entre essas atividades, destacam-se produções gráficas realizadas pelos alunos em seus domicílios, nas quais representam diferentes ambientes aquáticos e situações relacionadas à segurança e à prevenção de acidentes, utilizando recursos pedagógicos como a associação de cores análogas à sinalização de trânsito.
Após sua realização, os trabalhos são encaminhados pelas famílias por meio dos canais de comunicação do programa, favorecendo a continuidade do processo educativo para além do ambiente de aula e estimulando a participação dos responsáveis na reflexão sobre os conteúdos abordados.
Os responsáveis também podem participar de vivências educativas relacionadas ao salvamento seguro, incluindo simulações de resgate indireto com o lançamento de cordas e a utilização de objetos flutuantes disponíveis no ambiente, como galões plásticos e outros materiais de uso cotidiano, com o objetivo de demonstrar formas de assistência que minimizem a exposição do socorrista ao risco.
Além disso, os materiais pedagógicos utilizados nas aulas são apresentados e discutidos com as famílias, possibilitando a ampliação dos conhecimentos sobre diferentes ambientes aquáticos, seus riscos específicos e as estratégias de prevenção abordadas durante as atividades procedimentais. Dessa forma, a metodologia busca fortalecer a integração entre o ambiente educativo e a família, ampliando o alcance dos conteúdos relacionados à segurança aquática e à prevenção do afogamento.
15 dicas de supervisão adequada em ambientes aquáticos
- Manter a cadeira ou posição de observação voltada diretamente para a área aquática independentemente da presença de guarda-vidas no local.
- Definir previamente qual adulto será o responsável pela supervisão das crianças, assegurando que permaneça atento durante todo o período.
- Manter atenção constante nas crianças, evitando distrações com celular, televisão, livros, revistas ou conversas prolongadas.
- Permanecer próximo o suficiente da criança para intervir rapidamente em caso de emergência
- Não delegar implicitamente a responsabilidade a outros adultos sem comunicação clara.
- Evitar consumir bebidas alcoólicas ou substâncias que possam reduzir a atenção durante a supervisão.
- Não confiar exclusivamente em boias, coletes, espaguetes ou outros dispositivos flutuantes.
- Redobrar a atenção nos momentos de entrada e saída da água, quando costumam ocorrer muitas distrações.
- Observar continuamente as crianças, mesmo em locais rasos, pois afogamentos podem ocorrer em pequenas profundidades.
- Conhecer os riscos específicos do ambiente (piscina, praia, lago, rio, cachoeira ou parque aquático).
- Certificar-se de que barreiras de proteção, portões e cercas estejam funcionando adequadamente.
- Conhecer procedimentos básicos de emergência, incluindo o acionamento do socorro e o fornecimento de flutuação à vítima.
- Ensinar às crianças que elas nunca devem entrar na água sem autorização e supervisão de um adulto responsável.
- Utilizar a regra da supervisão adequada, que consiste em permanecer próximo da criança e orientá-la quanto às atitudes corretas no ambiente aquático.
- Lembrar que afogamentos costumam ocorrer de forma rápida e silenciosa, sem os sinais dramáticos frequentemente mostrados em filmes e programas de televisão.
Essas orientações reforçam que supervisionar não significa apenas estar presente, mas manter vigilância contínua, proximidade física e capacidade de resposta imediata diante de situações de risco.
Conte sua experiência sobre como a supervisão adequada salvou uma vida e envie seu relato para professormarcelobarros@hotmail.com
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- Vasconcellos MB. Aula de natação que ensina a reconhecer um afogamento. Revista Empresário Fitness & Health. Edição 147. Março de 2025. Disponível em: https://revistaempresariofitness.com.br/atividades-aquaticas/aula-de-natacao-que-ensina-a-reconhecer-um-afogamento/



