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Visão subaquática e recuperação de objetos no fundo da piscina

Colunista: Marcelo Barros de Vasconcellos

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A recuperação de um objeto submerso integra o item três do Teste de Aquacidade, desenvolvido por um professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). O item consiste em “afundar e apanhar um objeto no fundo da piscina, com os olhos abertos, sem o uso de óculos de natação, a 1 metro de profundidade”. Avaliações semelhantes também são propostas por pesquisadores espanhóis como forma de verificar o grau de adaptação do praticante ao ambiente aquático ao recuperar um objeto mantendo a cabeça submersa, sem apoio dos pés no fundo da piscina e com a água na altura dos ombros antes da imersão.

Aquacidade

A aquacidade está relacionada ao grau de adaptação da pessoa ao meio líquido e envolve competências como autossustentação, controle respiratório aquático, adaptação visual, deslocamento, consciência corporal e redução das chances de afogamento.

Embora alguns alunos não apresentem dificuldades para submergir e recuperar objetos, muitos demonstram receio de abrir os olhos embaixo d’água, relatando desconforto ou ardência provocados pelo cloro. Esse incômodo é relativamente comum nas aulas iniciais de natação e faz parte do processo de adaptação visual ao ambiente aquático, especialmente em piscinas tratadas com produtos químicos com concentrações inadequadas de cloro e seus subprodutos que podem causar desconforto nasal e ocular1.

A capacidade de nadar sem o uso de óculos de natação é considerada uma habilidade aquática essencial2. Nesse sentido, o processo de aprendizagem da natação deve ser iniciado, sempre que possível, sem o uso desse equipamento, não como uma restrição ao ensino, mas como um elemento fundamental no desenvolvimento da aquacidade. 

Nesse contexto, a realização das primeiras aulas sem o uso de óculos de natação pode favorecer a adaptação visual ao meio líquido. Após essa fase inicial, cuja duração varia conforme a metodologia empregada e as características individuais dos alunos, recomenda-se a utilização dos óculos para minimizar desconfortos durante a prática. Esse processo deve ocorrer de forma gradual, progressiva e individualizada, respeitando o ritmo de adaptação de cada praticante.

A capacidade de enxergar embaixo d’água

É uma habilidade fundamental para a aprendizagem da natação e para a adaptação ao ambiente aquático. Quando desenvolvida adequadamente, contribui para o aumento da sensação de segurança, melhora a percepção espacial e favorece a orientação corporal durante os deslocamentos aquáticos3.

Por outro lado, quando o aluno não consegue abrir os olhos naturalmente durante a submersão, podem surgir dificuldades associadas ao controle respiratório e à sensação do “(in)visível subaquático”, caracterizada pela percepção de incapacidade de enxergar sob a água5. Essa condição pode aumentar a insegurança e dificultar a exploração do ambiente aquático. Quando o aluno apresenta o comportamento de evitar olhar ao redor, busca emergir rapidamente e demonstra insegurança, ele provavelmente está inadaptado à visão subaquática.

O desenvolvimento da visão subaquática

Ocorre por meio de atividades que estimulam a descontração facial, a abertura gradual dos olhos e a permanência confortável em situação de imersão. Para muitos iniciantes, trata-se de um processo progressivo de adaptação. Conseguir manter os olhos abertos sem desconforto intenso ou necessidade frequente de esfregar o rosto representa um importante indicador de evolução. Além disso, a submersão tranquila da face favorece maior conforto, confiança e familiarização com o meio líquido3.

Durante as aulas, o professor pode utilizar a observação das expressões faciais e dos comportamentos do aluno como importantes indicadores do nível de adaptação ao ambiente aquático. Indivíduos adaptados costumam apresentar sinais corporais associados à alegria, diversão, satisfação e relaxamento muscular. Em contrapartida, alunos ainda (in)adaptados tendem a demonstrar expressões relacionadas à preocupação, nervosismo ou medo, evidenciando maior tensão e contração muscular.

A seguir, apresenta-se uma sequência de fotos que exemplificam alunos com características de adaptação visual subaquática e um quadro com os principais sinais faciais e corporais da (in)adaptação à visão subaquática segundo pesquisa feita pelo Dr. Marcelo Barros de Vasconcellos4.

Figura 1. Visão subaquática

Com base na observação das expressões corparais do aluno, pesquisadores da UERJ4 desenvolveram uma ferramenta de monitoramento do aluno iniciante na natação, chamada Índice Visual de Adaptação Subaquática (IVAS) que pode ser encontrado em “Use of the underwater adaptation visual index as a monitoring tool for beginner swimming students”.

Elaborada por Vasconcellos et al., 2026

Dessa forma, a observação sistemática dessas expressões pode auxiliar o professor na identificação das necessidades individuais dos alunos, permitindo intervenções pedagógicas mais adequadas e favorecendo uma adaptação segura, prazerosa e progressiva ao meio líquido.

Em situações inesperadas de submersão, a capacidade de abrir os olhos e orientar-se visualmente no ambiente aquático pode contribuir para respostas mais eficazes, aumentando a autonomia do praticante e fortalecendo comportamentos de autoproteção no meio líquido.

A habilidade de recuperar objetos submersos

Essa habilidade contribui não apenas para a adaptação visual e respiratória, mas também para o desenvolvimento da autonomia, da confiança e da percepção corporal e espacial do aluno. A exploração segura do fundo da piscina permite melhor compreensão dos limites do próprio corpo e do ambiente em que está inserido.

Assim, apanhar objetos no fundo da piscina sem o uso de óculos representa uma importante etapa da adaptação ao meio líquido e está diretamente ligado à visão subaquática. Essa atividade estimula a visão subaquática, o controle respiratório, a orientação espacial e a segurança durante a submersão. A exposição gradual e controlada a exercícios dessa natureza favorece a adaptação visual e emocional do praticante, reduzindo reações de medo e desorientação em situações inesperadas no meio aquático.

Ao conseguir localizar e recuperar objetos submersos sem auxílio de óculos, o aluno demonstra evolução na adaptação ao ambiente aquático, maior tranquilidade durante a imersão e melhora da percepção espacial embaixo d’água, desenvolvendo comportamentos mais seguros durante as práticas aquáticas.

Referências

  1. Vasconcellos, MB. Nascimento, JA. (2023). Pathophysiological factors, benefits and recommendations in swimming for asthmatics. International Seven Journal of Health, São José dos Pinhais, v.2, n.4, Jul./Aug.
  2. Rejman M, Rudnik D, Stallman RK. Goggle-free swimming as autonomous water competence from the perspective of breath control on execution of a given distance. Sci Rep. 2024 Aug 13;14(1):18820.
  3. Vasconcellos, MB. Controle respiratório na natação. Revista Empresário Fitness & Health, Minas Gerais, p.1 – 6, 2024. Disponível em: https://revistaempresariofitness.com.br/controle-respiratorio-na-natacao/.
  4. Vasconcellos MB, Blant GO, Restier L. Use of the underwater adaptation visual index as a monitoring tool for beginner swimming students. (2026). Revista De Geopolítica, 17(8), e3077. Disponível em: https://revistageo.com.br/revgeo/article/view/3077.

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