Quanto você ganha por mês?
Faço essa pergunta para empresários com frequência e, por mais simples que pareça, a resposta costuma demorar.
“Depende do mês.” “Meu pró-labore é baixo, mas vou fazendo algumas retiradas.” “Quando preciso, pego da empresa.”
Esse é um ponto que conheço de perto!
Estou no mercado fitness há 24 anos, já fui dona de academia e hoje trabalho com planejamento financeiro para empresários. Ao longo desse tempo, vi empresas lucrativas sustentarem donos financeiramente desorganizados. Vi também empresários tratarem o caixa da academia como se fosse uma extensão da própria conta corrente.
O pró-labore costuma ser tratado como um assunto burocrático. Um número que alguém definiu anos atrás e permaneceu ali.
Mas existe uma pergunta anterior à burocracia:
Quanto deveria valer o trabalho que você exerce dentro da sua própria empresa?
O sócio tem dois papéis
Essa separação muda a conversa.
Uma pessoa pode ser sócia porque colocou capital no negócio, assumiu o risco e possui uma participação naquela empresa. Nesse papel, ela é proprietária.
Mas ela também pode trabalhar na academia.
Pode administrar a operação, cuidar do comercial, contratar pessoas, resolver problemas financeiros ou abrir a academia às seis da manhã e fechar às onze da noite.
Eu já vivi essa última situação.
Não dava aula porque não sou profissional de Educação Física, mas fazia praticamente todo o resto. Atendia, vendia, contratava, resolvia problemas e, se precisasse, limpava banheiro.
Ser dono e trabalhar no negócio são papéis diferentes.
É por isso que dois sócios com 50% de participação não precisam necessariamente receber o mesmo pró-labore.
Imagine que um deles trabalhe cinco dias por semana na operação e o outro apenas participe de algumas decisões. A participação societária pode ser igual. A contribuição de trabalho, não.
O pró-labore deveria acompanhar essa realidade.
Então, como chegar a um valor?
Eu gosto de passar a decisão por quatro filtros.
O primeiro é a função.
O que você efetivamente faz dentro da academia?
Esqueça por alguns minutos o título de “dono”. Se você precisasse colocar uma função no seu crachá, qual seria?
Diretor-geral? Gestor? Professor? Responsável comercial?
Depois vem o segundo filtro: o valor de mercado.
Quanto seria necessário pagar para contratar uma pessoa competente para fazer aquilo que você faz?
Se um gestor com as mesmas responsabilidades receberia entre R$ 8 mil e R$ 12 mil na sua região, essa informação precisa entrar na análise.
Não significa que seu pró-labore obrigatoriamente será R$ 10 mil.
Porque ainda existe o terceiro filtro: a capacidade da empresa.
Uma função pode valer R$ 10 mil no mercado e a academia, naquele momento, não conseguir sustentar esse valor. Isso precisa ser encarado.
A empresa não tem obrigação de financiar o padrão de vida que o proprietário decidiu criar.
Essa frase incomoda, mas é necessária.
Já encontrei empresários cuja vida pessoal cresceu mais rápido do que a capacidade econômica da empresa. Quando isso acontece, o raciocínio se inverte: em vez de o negócio remunerar o dono de maneira saudável, o dono começa a exigir que o negócio produza dinheiro suficiente para sustentar todas as decisões que tomou fora dele.
A academia começa a ser sugada.
O quarto filtro é a previsibilidade.
Se você definir determinado valor de pró-labore, a empresa consegue pagá-lo de maneira recorrente?
Porque o empresário também assume compromissos pessoais. Moradia, escola, financiamento e outras despesas continuam existindo mesmo quando a academia entra em um mês mais fraco.
Um pró-labore inteligente precisa fazer sentido para os dois lados.
A ilusão do pró-labore de R$ 2 mil
Existe uma situação que encontro com frequência.
O pró-labore formal é de R$ 2 mil. Mas o empresário precisa de R$ 15 mil, R$ 20 mil ou R$ 25 mil para viver. Então ele recebe os R$ 2 mil e passa o restante do mês fazendo retiradas.
Paga uma conta aqui. Transfere R$ 3 mil ali. A academia paga o cartão. Depois aparece a escola, o carro, uma viagem.
No papel, existe um pró-labore. Na vida real, ninguém sabe qual é a renda daquele empresário. Esse é o problema.
A pessoa pode até dizer que recebe R$ 2 mil, mas sua família depende de R$ 20 mil. A verdadeira renda não possui estrutura. E quando não existe estrutura, cada mês começa do zero.
O empresário precisa criar o próprio salário
Mesmo com uma renda variável, é possível definir uma base.
Durante a masterclass que ministrei recentemente, usei um exemplo simples.
Imagine que um empresário tenha feito as seguintes retiradas em seis meses:
- R$ 52 mil em janeiro.
- R$ 34 mil em fevereiro.
- R$ 61 mil em março.
- R$ 29 mil em abril.
- R$ 43 mil em maio.
- R$ 36 mil em junho.
A média fica próxima de R$ 42 mil.
Seria tentador dizer: “Minha renda é de aproximadamente R$ 42 mil por mês”.
Eu não faria isso. A média é uma fotografia matemática do passado. Ela esconde os vales.
No mercado fitness, isso é ainda mais importante, porque existe sazonalidade. Janeiro pode ter um comportamento. Julho, outro. Dezembro pode trazer uma dinâmica completamente diferente.
Por isso, prefiro analisar pelo menos 12 meses. Quero enxergar qual foi a faixa recorrente e, principalmente, quais foram os meses mais fracos.
Se o empresário ficou várias vezes próximo dos R$ 30 mil, é muito mais prudente organizar a vida sobre uma renda-base próxima desse valor do que construir compromissos contando com os R$ 42 mil da média.
Esse é o ponto:
Renda média descreve. Renda-base protege.
Ganhar R$ 30 mil não significa poder gastar R$ 30 mil
Aqui entra outra conta que muita gente não faz.
Quando pergunto quanto uma família gasta por mês, normalmente recebo um número baseado nas despesas que aparecem todos os meses.
Vamos imaginar R$ 24 mil.
Só que existem despesas que não chegam mensalmente: IPVA. IPTU. Seguro. Matrícula escolar. Material. Viagem já planejada. Manutenção da casa.
Se ao longo do ano essas despesas somarem R$ 72 mil, existe mais R$ 6 mil por mês de custo que estava escondido. Aquela família que acreditava custar R$ 24 mil custa, na prática, R$ 30 mil.
É o que chamo de custo normalizado.
E existe uma diferença importante entre provisão e emergência. Se todo janeiro o IPVA surpreende você, o IPVA não é o problema. O planejamento é.
Despesa conhecida precisa ser provisionada. Reserva de emergência tem outra função.
Crie um amortecedor entre a academia e sua família
Empresários convivem com oscilações. Isso faz parte. O erro é permitir que a família oscile exatamente na mesma intensidade.
Por isso trabalho com um conceito que gosto muito: conta de equalização de renda.
Pense nela como um pequeno capital de giro da pessoa física.
Se sua renda-base é R$ 30 mil e em janeiro você recebe R$ 45 mil, existem R$ 15 mil acima da base. O comportamento comum é gastar R$ 45 mil. Talvez trocar o carro. Fazer uma viagem. Assumir uma nova prestação. Agora imagine que em fevereiro a retirada caia para R$ 24 mil. Faltam R$ 6 mil.
É nesse momento que muita gente volta para o caixa da academia, usa limite ou começa a atrasar contas. A equalização quebra esse ciclo.
Parte daqueles R$ 15 mil recebidos em janeiro fica reservada. Quando fevereiro traz R$ 24 mil, a diferença de R$ 6 mil é absorvida por esse caixa. A família continua operando sobre R$ 30 mil. A academia oscilou. A casa não precisou oscilar na mesma velocidade.
Cuidado com o efeito catraca
Existe outro comportamento que vejo bastante.
A renda cresce e o padrão de vida sobe quase imediatamente. Carro melhor. Imóvel maior. Restaurantes mais caros. Viagens mais frequentes.
Até aí, nenhum problema em melhorar de vida. Trabalhamos para isso também. A dificuldade aparece quando um ano excepcional é tratado como se fosse o novo normal.
Eu chamo isso de efeito catraca.
O padrão sobe com facilidade. Para descer, trava. Porque reduzir padrão de vida é financeiramente difícil e emocionalmente pior. Por isso, antes de transformar um aumento de renda em nova despesa fixa, faço três perguntas.
- Essa renda maior é recorrente ou foi um pico?
- Se as coisas mudarem, essa decisão é reversível?
- Essa considero fundamental: se minha renda-base cair 20% durante alguns meses, eu ainda consigo sustentar esse compromisso?
Se você ganha R$ 30 mil e passa temporariamente a R$ 24 mil, a nova parcela continua cabendo?
Essa pergunta é muito melhor do que “eu consigo pagar?”.
Conseguir pagar hoje é fácil de demonstrar, sustentar amanhã exige planejamento.
O caixa da academia não pode ser o plano B da sua vida pessoal
Tenho uma pergunta que costuma revelar rapidamente a situação financeira de um empresário:
“Se sua empresa tiver três meses ruins, sua família sente no primeiro?”
Se a resposta for sim, existe pouca distância entre o risco do negócio e a vida pessoal.
E essa distância precisa existir. Durante anos, o mercado fitness ficou muito bom em ensinar o dono de academia a acompanhar número de alunos, ticket, vendas e resultado operacional. Tudo isso é necessário.
Mas ainda falamos pouco sobre a saúde financeira da pessoa que está por trás do CNPJ. Eu vejo isso de outra forma porque conheço os dois lados.
Fui empresária no fitness. Hoje acompanho empresários na organização da vida financeira. E uma coisa ficou clara para mim: a academia e o empresário dependem um do outro, mas um não pode sangrar o outro.
Seu pró-labore precisa fazer sentido para a função que você exerce. A empresa precisa conseguir sustentá-lo. Sua vida precisa ser organizada sobre um valor previsível.
Se todo mês você precisa abrir o aplicativo do banco da academia para descobrir quanto poderá viver naquele mês, você ainda não definiu sua renda, você apenas aprendeu a fazer retiradas.



