Publicidade

[uam_ad id=”3500″]

Treinamos muitos líderes, mas quantos realmente desenvolvemos?

Colunista: Cris Santos

Publicidade

Em muitas academias, quando um gestor enfrenta dificuldades, a primeira resposta é inscrevê-lo em um treinamento. Ele aprende sobre comunicação, feedback, delegação, metas e gestão de equipe. Volta motivado, com novas ideias e anotações. Mas, algumas semanas depois, a rotina parece a mesma: decisões continuam concentradas no gerente, conversas difíceis são adiadas e os indicadores não se transformam em ações com a equipe.

Isso acontece porque participar de um curso não significa, por si só, desenvolver uma liderança. Treinamento é um evento. Desenvolvimento é um processo que precisa chegar ao trabalho real, ser praticado, acompanhado e incorporado à rotina.

A diferença não está em desvalorizar os treinamentos. Eles são importantes para apresentar conceitos, organizar conhecimentos e ampliar repertório. O problema aparece quando a empresa considera a aprendizagem concluída na entrega do certificado. Para que o conhecimento produza resultado, existe um caminho: treinar, entender, aplicar, repetir, incorporar e, então, gerar impacto.

Um gerente pode aprender que precisa delegar, mas continuar centralizando porque acredita que ninguém fará tão bem quanto ele. Um coordenador pode conhecer técnicas de feedback, mas evitar a conversa quando um professor chega atrasado ou não cumpre um combinado. Um líder pode saber calcular conversão ou evasão, mas não usar o indicador para orientar uma reunião, ajustar uma abordagem ou acompanhar a equipe.

Em todos esses casos, o conteúdo foi apresentado. O desafio está em transformar conhecimento em comportamento.

Da teoria à prática

Essa transformação exige clareza sobre o que se espera do líder. “Precisa melhorar a comunicação” é uma orientação vaga. Que comportamento deve mudar? O gestor precisa fazer reuniões individuais? Dar retorno no mesmo dia em que ocorre um problema? Confirmar se a equipe entendeu a meta? Acompanhar os combinados no próximo turno?

Quando a expectativa é concreta, fica mais fácil praticar e avaliar. Em vez de dizer “delegue mais”, por exemplo, a empresa pode combinar que o gerente escolha uma rotina semanal para transferir a um integrante da equipe, explique o resultado esperado e acompanhe sem retomar a tarefa na primeira dificuldade. Assim, delegar deixa de ser uma ideia abstrata e se torna uma ação observável.

Também é preciso aceitar que aprender uma nova prática envolve erros e ajustes. Um líder que nunca conduziu uma conversa de desempenho não vai se tornar habilidoso depois de ouvir uma aula. Ele precisa experimentar, receber orientação, tentar de novo e perceber o efeito de sua abordagem. O primeiro feedback pode sair confuso. A primeira reunião pode se alongar. Isso não significa que o desenvolvimento falhou; significa que a prática começou.

Por isso, simulações de situações gerenciais são tão úteis. Antes de conversar com um colaborador sobre faltas recorrentes, por exemplo, o gestor pode ensaiar como apresentar fatos, ouvir a outra pessoa e combinar próximos passos. Depois, realiza a conversa real e retorna para avaliar o que funcionou e o que pode melhorar. O desenvolvimento se aproxima da operação e deixa de depender apenas da memória do que foi dito em sala.

A mesma lógica vale para a gestão dos indicadores. Saber que a meta de conversão está abaixo do esperado não basta. O líder precisa interpretar o dado, investigar o processo e organizar uma ação com a equipe: revisar como as visitas são atendidas, observar abordagens, praticar respostas a objeções e acompanhar os resultados em uma cadência definida. O número passa a orientar uma rotina, e não apenas a preencher um relatório.

A repetição é o que ajuda a consolidar essa mudança. Um comportamento novo precisa aparecer mais de uma vez, em diferentes situações, até que o líder consiga adotá-lo com consistência. Cabe à empresa criar condições para isso: reservar tempo para acompanhamento, oferecer devolutivas, reconhecer avanços e corrigir desvios sem transformar cada erro em motivo para desistir da pessoa.

Quem vai ser promovido

Esse acompanhamento não precisa ser complicado. Pode acontecer em conversas curtas e regulares, com três perguntas: o que foi combinado? O que você conseguiu aplicar? O que precisa de ajuste para a próxima semana? Quando líder e gestor respondem a essas perguntas com exemplos concretos, o desenvolvimento fica visível e conectado ao trabalho.

Há ainda uma responsabilidade importante da organização: não promover alguém apenas porque a pessoa é excelente tecnicamente. Liderar exige capacidades diferentes, como priorizar, orientar, decidir, conversar e desenvolver outras pessoas. Se a academia cria cargos sem preparar quem vai ocupá-los, pode aumentar a estrutura no organograma e, ao mesmo tempo, ampliar a distância entre o cargo e a capacidade necessária para exercê-lo.

Desenvolver líderes é preparar pessoas para assumir responsabilidades progressivamente maiores, com orientação e oportunidades reais de prática. Isso pede paciência, critérios e continuidade. Também pede que a empresa avalie não apenas a presença em treinamentos, mas aquilo que mudou na rotina: as conversas que passaram a acontecer, as decisões que deixaram de depender de uma única pessoa, os indicadores que começaram a orientar ações e a equipe que ganhou mais autonomia.

Academias não precisam de líderes que apenas conheçam os conceitos certos. Precisam de gestores capazes de aplicá-los quando a operação aperta, quando a meta não avança ou quando uma conversa importante precisa acontecer.

Treinar pode abrir a porta. Desenvolver é acompanhar a pessoa até que ela consiga atravessá-la com consistência — e ajudar sua equipe a avançar junto.

Leia outros artigos

O que achou desse artigo?

Publicidade

Publicidade

Publicidade

REF&H
Enviar