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As tendências wellness apontam para o Círculo do Cuidar

Colunista: Angelo Dias

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Chegar à edição 100 da Revista Empresário Fitness, sob a liderança visionária do Prof. Leonardo Allevato, não é apenas celebrar a longevidade de uma publicação, é ter a oportunidade de testemunhar a transformação do mercado fitness no Brasil. Ao longo destas cem edições, vimos o setor migrar da era das academias centradas exclusivamente na estética e no rendimento para a era da entrega de saúde, longevidade e qualidade de vida.

No entanto, vivemos hoje um paradoxo fascinante e perigoso: temos mais mercado, mas não necessariamente mais bem-estar.

As redes sociais e as arenas de eventos internacionais — como brilhantemente tem pontuado o Professor Eduardo Netto (@nettodudu) em suas recentes coberturas das maiores feiras internacionais do segmento fitness — revelam uma mudança clara no comportamento do consumidor global. O cliente do bem-estar em 2026 não procura mais apenas uma grade de horários flexível, equipamentos de última geração ou um protocolo rígido de hipertrofia. Ele busca algo mais profundo, mais humano e incomparavelmente mais sustentável: a sensação real de cuidado.

É nesse cenário de transição de valores que a metodologia do Círculo do Cuidar — Acolher, Orientar e Acompanhar — deixa de ser um diferencial romântico para se consolidar como o verdadeiro pilar estratégico de retenção, diferenciação e valor percebido para academias, estúdios e centros de bem-estar.

1. O pano de fundo global: o que os dados internacionais estão alertando?

Para entender por que o modelo tradicional de vendas de “acesso à estrutura” está entrando em exaustão, basta olharmos para as pesquisas globais mais recentes.

O Relatório do Global Wellness Institute (GWI)

O relatório mais recente do Global Wellness Institute aponta que a economia do bem-estar ultrapassou a marca histórica de US$ 5.6 trilhões, impulsionada principalmente pelos setores de Physical Activity, Mental Wellness e Preventive & Personalized Medicine. Contudo, o dado mais relevante para profissionais e gestores do setor, não é apenas o crescimento financeiro, mas a mudança de motivação do cliente:

  • Mais de 72% dos consumidores de wellness declaram que buscam espaços de prática corporal para gerenciar estresse, combater a solidão e construir rotinas sustentáveis de longevidade — superando os objetivos puramente estéticos;
  • O conceito de “Longevidade Saudável” e “Flourishing” (Florescimento Humano) tornou-se a métrica primária de sucesso pessoal para as gerações de adultos e 60+.

As pesquisas de tendências do ACSM (American College of Sports Medicine)

Ao analisarmos as pesquisas mundiais de tendências de fitness do ACSM para os últimos anos, observamos a consolidação no topo da lista de temas como:

  1. Exercício para a Saúde Mental e Estresse.
  2. Programas de Fitness para Idosos e Longevidade Ativa.
  3. Tecnologia Vestível ligada à Saúde Holística (não apenas gasto calórico, mas variabilidade da frequência cardíaca, sono e recuperação).
  4. Coaching de Estilo de Vida e Mudança de Comportamento.

O Relatório de Consumo da McKinsey & Company

Estudos globais da McKinsey sobre o mercado de bem-estar mostram que 82% dos consumidores nos EUA, Reino Unido e Brasil consideram o wellness uma prioridade diária importante. Porém, os mesmos consumidores relatam uma “overdose de informações desconexas” e a falta de um direcionamento humano e seguro em meio a tantos aplicativos, influencers e promessas milagrosas.

A equação do mercado atual:

Muitas opções de treino + Excesso de informação sem filtro = Ansiedade e Abandono.

A solução estratégica: cultura do cuidar.

2. A ilusão do "Mais Mercado e Menos Bem-Estar"

Conforme observado nas provocações de Eduardo Netto após os grandes fóruns mundiais do setor, a indústria global do fitness cresceu expressivamente em escala, mas enfrenta taxas vertiginosas de churn (cancelamento).

Por que uma academia impecável, equipada com o que há de mais moderno, perde até 40% a 50% da sua base de alunos ao longo de um único ano?

A resposta é simples: focar no produto em vez da jornada interpessoal.

Quando vendemos apenas a infraestrutura ou a “massa muscular”, concorremos com o aplicativo gratuito, com a corrida de rua, com a academia de bairro e com o cansaço do próprio cliente. Mas quando vendemos a experiência do cuidar, criamos barreiras de saída que a tecnologia isolada ou o preço baixo jamais conseguirão quebrar.

É exatamente aqui que se insere a arquitetura do Círculo do Cuidar.

3. Descodificando a metodologia: o Círculo do Cuidar na prática da gestão

O Círculo do Cuidar não é um jargão motivacional; é uma metodologia operacional e de relacionamento dividida em três pilares interdependentes: Acolher, Orientar e Acompanhar.

Pilar I: ACOLHER (resgate do pertencimento)

  • O diagnóstico: vivemos em uma sociedade epidemiologicamente marcada pela solidão e pela desconexão. Entrar em uma academia pela primeira vez pode ser uma experiência intimidadora, marcada pela sensação de inadequação corporal e social.
  • A ação de gestão: acolher é criar um ambiente onde o aluno sinta que pertence antes mesmo de performar. Vai além do sorriso na recepção; envolve a construção de uma cultura organizacional na qual o professor chama pelo nome, compreende os limites do corpo que chega e escuta ativamente as reais dores do cliente.
  • Impacto no negócio: o acolhimento reduz drasticamente a evasão nos primeiros 90 dias (fase crítica de adesão). A neurociência do comportamento humano comprova que a sensação de segurança psicológica é o primeiro pré-requisito para o engajamento de longo prazo.

Pilar II: ORIENTAR (competência técnica e a ética profissional)

  • O diagnóstico: o cliente contemporâneo está intoxicado por falsas promessas, milagres de internet e métodos sem respaldo científico. No mercado hipercomercializado, a orientação técnica pautada na ética e na ciência tornou-se um artigo de luxo sob a ótica do consumidor.
  • A ação de gestão: orientar significa traduzir a ciência do exercício em metas realistas e personalizadas. É posicionar o profissional de Educação Física não como um mero “passador de treinos”, mas como um consultor de longevidade saudável. Exige honestidade para dizer o que o cliente precisa ouvir — e não apenas o que ele quer comprar —, respaldando cada prescrição em evidências.
  • Impacto no negócio: constrói autoridade de marca e credibilidade inabalável. O cliente percebe que a sua empresa cuida da saúde dele com o mesmo rigor de um serviço médico especializado, justificando um ticket médio superior.

Pilar III: ACOMPANHAR (presença contínua e a celebração das pequenas vitórias)

  • O diagnóstico: o erro clássico das operações fitness é concentrar toda a energia na venda e na avaliação inicial, abandonando o cliente no “meio do caminho”. A mudança de hábito não ocorre em um evento isolado, mas em um processo contínuo de adaptação.
  • A ação de gestão: acompanhar é monitorar a jornada e, acima de tudo, celebrar as pequenas vitórias. Melhorar o padrão de sono, subir um lance de escadas sem falta de ar, reduzir a medicação de dor ou manter a frequência de 3 vezes por semana durante um mês são conquistas gigantescas para quem era sedentário.
  • Impacto no negócio: O acompanhamento sistemático gera o que a psicologia positiva chama de reforço positivo e autoeficácia. É a chave mestra do LTV (Lifetime Value). O aluno não renova o plano pelo treino de hoje, mas pelo progresso percebido e acompanhado ao longo do tempo.

4. O impacto direto nos indicadores financeiros da operação

Para o gestor que nos lê nesta edição 100, vale salientar: humanização e rentabilidade caminham lado a lado. A implementação do Círculo do Cuidar impacta diretamente as principais métricas do DRE de uma academia:

Métrica de Gestão

Modelo Tradicional (Foco em Vendas)

Modelo Círculo do Cuidar (Foco no Cliente)

CAC (Custo de Aquisição de Clientes)

Alto (dependente constante de campanhas agressivas)

Baixo (alavancado pelo NPS e indicações espontâneas)

Taxa de Evasão (Churn Rate)

Elevada (3% a 8% ao mês)

Reduzida (foco em acolhimento nos primeiros 90 dias)

LTV (Lifetime Value)

Curto (média de 3 a 6 meses)

Longo (renovações sucessivas e fidelização de anos)

Ticket Médio

Pressionado para baixo pela concorrência de preço

Elevado pelo valor percebido do acompanhamento

Clima Organizacional / Retenção de Talentos

Alta rotatividade de professores

Equipe engajada, valorizada e com propósito claro

5. Conclusão e visão de futuro para as próximas 100 edições

À medida que celebramos a edição 100 da Empresário Fitness, sob a liderança do Prof. Leonardo Allevato, o convite que faço a cada estudante ou profissional de Educação Física, gestor, proprietário e coordenador técnico é uma mudança de olhar sobre a própria essência do negócio fitness.

O futuro do mercado wellness não pertence a quem tem a maior quantidade de m² ou a máquina mais reluzente importada da Europa. O futuro pertence às marcas que souberem transformar infraestrutura em ambiente de cura, acolhimento e desenvolvimento humano.

As tendências internacionais já decretaram: o cliente quer mais do que treino. Ele quer atenção, clareza técnica e parceria de jornada. Ao estruturar a sua operação em torno do Acolher, Orientar e Acompanhar, sua empresa não estará apenas se blindando contra a concorrência — estará cumprindo o propósito mais nobre da nossa profissão: transformar vidas através do cuidado genuíno.

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