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Círculo do Cuidar e Teoria da Autodeterminação: qual a relação?

Colunista: Angelo Dias

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No mercado fitness atual, a disputa deixou de ser apenas por estrutura, equipamentos ou preço. Cada vez mais, vence quem consegue criar experiências que geram vínculo, adesão e permanência. É nesse contexto que o Círculo do Cuidar, conceito apresentado no livro Mercado do Bem-Estar: Acolher, Orientar e Acompanhar, dialoga diretamente com a Teoria da Autodeterminação (TAD), uma das principais abordagens contemporâneas para explicar motivação humana.

Este artigo tem como objetivo mostrar, de forma prática e estratégica, como esses dois referenciais se complementam e podem orientar gestores de academias na construção de ambientes mais humanos, eficientes e sustentáveis.

O que é o Círculo do Cuidar?

O Círculo do Cuidar é um modelo de atuação profissional baseado em três pilares interdependentes:

  • Acolher: criar um ambiente seguro, empático e receptivo desde o primeiro contato.
  • Orientar: oferecer direção técnica, educativa e individualizada, respeitando o contexto e os objetivos do aluno.
  • Acompanhar: manter presença ativa, feedbacks constantes e ajustes ao longo do processo.

Mais do que um método operacional, o Círculo do Cuidar propõe uma mudança de mentalidade: o aluno deixa de ser apenas um consumidor de treinos e passa a ser um sujeito em processo de desenvolvimento (DIAS, 2025).

A Teoria da Autodeterminação

A Teoria da Autodeterminação, desenvolvida por Deci e Ryan (1985), afirma que a motivação de qualidade depende da satisfação de três necessidades psicológicas básicas:

  • Autonomia: sentir que tem escolha e controle sobre suas ações.
  • Competência: perceber-se capaz de aprender, evoluir e ter sucesso.
  • Vínculo (Relacionamento): sentir-se pertencente, aceito e conectado a outras pessoas.

No contexto do exercício físico, estudos mostram que ambientes que atendem a essas necessidades favorecem maior adesão, bem-estar e manutenção da prática ao longo do tempo (DOMINSKI, 2018; MATIAS, 2020).

Onde o Círculo do Cuidar encontra a Teoria da Autodeterminação?

A relação entre o Círculo do Cuidar e a Teoria da Autodeterminação é direta e estratégica.

Vínculo se conquista com acolhimento

O acolhimento é a base da necessidade psicológica de relacionamento. Ele se materializa em ações simples, porém consistentes, que comunicam ao aluno que ele é visto e valorizado.

Exemplos práticos incluem: recepção atenciosa logo no primeiro dia, apresentação do espaço e do time, chamada pelo nome, escuta atenta sobre histórico de saúde e expectativas, além de uma postura não julgadora diante de limitações físicas ou experiências anteriores frustradas. Academias que estruturam um processo de acolhimento desde a matrícula reduzem significativamente a sensação de estranhamento comum nas primeiras semanas.

Segundo Dominski (2018), o sentimento de pertencimento é um dos principais preditores de permanência em programas de exercício físico. Quando o aluno percebe que faz parte de um ambiente seguro e socialmente acolhedor, a chance de abandono precoce diminui consideravelmente.

Competência é desenvolvida com orientação

A orientação qualificada é o principal caminho para o desenvolvimento da percepção de competência. Não se trata apenas de prescrever exercícios, mas de ensinar, contextualizar e acompanhar o processo de aprendizagem motora e de adaptação ao treinamento.

Na prática, isso envolve explicar o porquê de cada exercício, ajustar cargas e volumes de forma progressiva, estabelecer metas de curto prazo, celebrar pequenas conquistas e oferecer feedbacks constantes. A tradução da linguagem técnica para termos compreensíveis fortalece a confiança do aluno e reduz a ansiedade relacionada ao erro ou ao desempenho.

Matias (2020) aponta que ambientes que promovem feedback positivo, metas realistas e sensação de progresso contínuo favorecem níveis mais elevados de motivação autodeterminada. Quando o aluno se sente capaz, ele passa a se engajar não por obrigação, mas por perceber sentido e eficácia na prática.

Autonomia é encorajada com acompanhamento

O acompanhamento contínuo é a etapa que mais dialoga com a necessidade de autonomia. Acompanhar não é vigiar, mas criar espaços de escolha, negociação e corresponsabilidade.

Exemplos práticos incluem: permitir que o aluno participe da definição de metas, discutir alternativas de treino conforme rotina e preferências, ajustar planos diante de imprevistos e incentivar a autorreflexão sobre resultados e sensações. Check-ins periódicos, reavaliações dialogadas e conversas breves durante o treino fortalecem esse processo.

No Círculo do Cuidar, acompanhar significa caminhar junto, respeitando o tempo, o contexto e as decisões do aluno. Esse modelo reduz a dependência excessiva do profissional e estimula o desenvolvimento da autonomia, fator essencial para a manutenção do comportamento ativo a longo prazo (DIAS, 2025).

Implicações práticas para gestores de academias

Para o gestor, compreender essa relação vai além do discurso motivacional. Trata-se de estratégia de negócio. Academias que estruturam processos baseados no acolher, orientar e acompanhar tendem a:

  • Reduzir evasão e rotatividade.
  • Aumentar o tempo de permanência dos alunos.
  • Fortalecer a cultura organizacional.
  • Valorizar o papel do professor como agente de cuidado e não apenas de prescrição.

Isso exige investimento em atualização do time, revisão de indicadores de desempenho e alinhamento entre discurso e prática cotidiana.

O Círculo do Cuidar e a Teoria da Autodeterminação convergem em um ponto central: pessoas permanecem onde se sentem respeitadas, capazes e pertencentes. Para academias que não podem — ou não querem — competir apenas por tamanho ou preço, esse alinhamento conceitual representa uma vantagem competitiva real e sustentável.

Cuidar, nesse contexto, deixa de ser um diferencial subjetivo e passa a ser uma estratégia fundamentada em ciência, gestão e humanidade.

Referências

DIAS, A. Mercado do Bem-Estar: acolher, orientar e acompanhar. Campos dos Goytacazes: Autor, 2025.

DEC I, E. L.; RYAN, R. M. Intrinsic motivation and self-determination in human behavior. New York: Plenum Press, 1985.

DOMINSKI, F. H. Motivação, aderência e exercício físico: contribuições da Teoria da Autodeterminação. Revista Brasileira de Atividade Física & Saúde, Florianópolis, v. 23, n. 1, 2018.

MATIAS, T. S. Exercício físico, motivação e saúde mental: uma abordagem baseada na autodeterminação. Revista de Psicologia do Esporte, v. 29, n. 2, 2020.

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