Nas últimas décadas, o mercado fitness concentrou seus esforços, estratégias de marketing e investimentos em infraestrutura dentro das quatro paredes das academias. Disputamos o mesmo cliente de forma feroz, criamos modelos de low cost a boutiques, e refinamos a experiência do usuário. Segundo o consultor Leonardo Leão (@leonardoleaoof), o número de academias quase triplicou em 10 anos: 23.000 em 2015 para 63.000 atualmente. O Datafolha (2026) mostrou que 53% da população está praticando atividade física, mas somente 7 em cada 100 pessoas está treinando em academia. Saímos dos 5% (que acompanhamos desde a década de 80) para 7%, mas o saldo que fica é que temos mais academias lutando, praticamente, pelo mesmo cliente.
Não houve um aumento do número de praticantes, mas um aumento do número de modelos de negócio fitness, com destaque para o modelo low cost.
O lado bom da maior diversidade de modelos é a possibilidade de conquistar pessoas que não gostavam do modelo tradicional de academia. Arrisco afirmar que boa parte desses novos 2% de praticantes representam o cliente do bem-estar, aquele que busca saúde e qualidade de vida, e que encontrou amparo no modelo de estúdio de treinamento personalizado, modelo no qual se pratica o círculo do cuidar.
E para ampliar a preocupação com o futuro do negócio academia, uma sombra estratégica paira sobre o setor, e os dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) emitiram o alerta definitivo: 80% dos adolescentes no mundo estão no espectro do comportamento sedentário.
Para piorar o cenário, a infância tem sido capturada pelas telas cada vez mais cedo. O entretenimento passivo e os estímulos dopaminérgicos dos algoritmos estão vencendo o movimento humano. Se continuarmos ignorando esse fato, em dez ou quinze anos, o mercado fitness enfrentará um apagão de clientes ou, pior, receberá uma geração de adultos com severas limitações motoras, metabólicas e emocionais, cuja barreira de entrada para a prática de exercícios será infinitamente maior.
Quem salvará o futuro do nosso segmento? A resposta não está em um novo software de gestão ou na esteira de última geração. A resposta está nas mãos do Professor de Educação Física Escolar. Ele é a única fronteira e a verdadeira chance de cultivarmos adultos com um estilo de vida ativo nas próximas gerações.
Lembro de ler esse alerta nas páginas do Manifesto Internacional para a Promoção da Atividade Física no Pós-COVID-19, em especial na recomendação número 5, dentre as 12 presentes no documento:
Focar no aumento dos estímulos e das oportunidades para o exercício de uma vida mais ativa no contexto da escola. Na retomada das atividades presenciais, será necessária uma profunda revisão do ambiente escolar, transformando-o em um polo promotor da atividade física combinado com a redução do comportamento sedentário, promovendo, dessa forma, a saúde ao longo da vida.
A base do funil: a escola como berço do cliente de amanhã
No ecossistema de negócios, falamos muito sobre o “funil de vendas”. Se analisarmos a jornada de saúde de um indivíduo, a Educação Física Escolar é o topo absoluto desse funil. É ali que a relação humana com o movimento é gestada. Quando a experiência escolar com o esporte ou a atividade física é excludente, traumática ou simplesmente negligenciada, o mercado fitness perde um cliente em potencial para o resto da vida.
O sedentarismo na juventude é um preditor direto de doenças crônicas e custos elevados com a saúde na vida adulta, como aponta o estudo de Melo et al. (2018) na Revista Brasileira de Epidemiologia, que associa o tempo de tela e a inatividade física em adolescentes a fatores de risco cardiovascular precoces. Outra referência fundamental no cenário nacional é o trabalho de Silva e Silva (2020) na Revista Brasileira de Atividade Física & Saúde, que mapeia as barreiras para a prática de atividades físicas na juventude e reforça como o ambiente escolar é o único espaço democrático capaz de intervir nessa realidade de forma massiva.
É por isso que o movimento nacional que pleiteia a ampliação da carga horária da Educação Física escolar — passando de uma pífia aula semanal para três encontros obrigatórios — não é apenas uma pauta corporativa ou pedagógica. É uma necessidade de saúde pública e, do ponto de vista econômico, uma medida de sustentabilidade para o mercado de bem-estar. Mais tempo de quadra significa mais alfabetização motora, mais repertório de movimento e uma relação mais positiva com o corpo.
O círculo do cuidar: a metodologia que salva vidas
No entanto, o aumento da carga horária por si só não opera milagres se a abordagem pedagógica continuar focada apenas na performance ou no “rola bola”. Para salvar crianças e adolescentes do magnetismo das telas e do sedentarismo, o Professor de Educação Física Escolar precisa atuar sob a ótica de uma metodologia humanizada: o Círculo do Cuidar, sustentado por três pilares inegociáveis: Acolher, Orientar e Acompanhar.
[ ACOLHER ] -> O aluno em suas dores e inseguranças corporais.
[ ORIENTAR ] -> O movimento com propósito, autonomia e prazer.
[ ACOMPANHAR ] -> A jornada evolutiva, celebrando pequenas vitórias.
1. Acolher
O ambiente escolar pode ser cruel para os jovens que não se encaixam nos padrões atléticos tradicionais. O acolhimento acontece quando o professor transforma a aula em um espaço seguro, onde o erro faz parte do aprendizado e a diversidade de corpos é respeitada. Acolher significa desmistificar a ideia de que o exercício é punição ou exclusividade dos “melhores da turma”.
2. Orientar
Orientar vai além de ensinar as regras do voleibol ou do futsal. Significa educar para a autonomia. O jovem precisa entender o porquê de se movimentar, como o exercício regula suas emoções, melhora o foco nos estudos e combate a ansiedade alimentada pelas redes sociais. É gerar valor perceptível para o movimento.
3. Acompanhar
O cuidado se consolida no acompanhamento. Cada passo, cada evolução na coordenação motora, na resistência ou na socialização do aluno deve ser vista e valorizada. O professor que acompanha não deixa ninguém para trás; ele percebe o aluno que se isola no canto da quadra e o traz de volta para o ecossistema ativo.
Quando o professor aplica o Círculo do Cuidar na escola, ele não está apenas cumprindo um currículo, ele está vacinando o jovem contra o sedentarismo e pavimentando o caminho para que ele se torne um adulto que busca a atividade física por prazer e autocuidado — o cliente consciente que toda academia deseja ter.
Um chamado aos gestores: menos mercado, mais bem-estar
Para gestores, proprietários de academias e profissionais do segmento fitness, entender esse movimento é uma virada de chave cultural. Precisamos parar de enxergar a Educação Física Escolar como um universo distante e isolado. O pátio da escola e a sala de musculação fazem parte da mesma jornada de longevidade saudável do ser humano.
Apoiar a valorização do profissional de Educação Física na escola, defender o aumento do número de aulas semanais e adotar a filosofia do Círculo do Cuidar dentro das nossas próprias estruturas corporativas é o que diferencia o mercado puramente comercial da verdadeira indústria do bem-estar.
O futuro do nosso segmento não será definido pela tecnologia das nossas catracas, mas pela capacidade humana de acolher as próximas gerações e resgatá-las do sedentarismo enquanto ainda há tempo.
Referências
DIAS, A. G. Mercado do bem-estar: acolher, orientar e acompanhar. Campos dos Goytacazes: L.A. Editora, 2025. (traz os detalhes da prática do Círculo do Cuidar).
MELO, S. P. et al. Comportamento sedentário e fatores de risco cardiovascular em adolescentes: estudo de base populacional. Revista Brasileira de Epidemiologia, 2018. (Aborda o impacto direto do tempo de tela na saúde metabólica dos jovens).
SILVA, R. C.; SILVA, M. F. Barreiras e facilitadores para a prática de atividade física em ambiente escolar no Brasil. Revista Brasileira de Atividade Física & Saúde, 2020. (Reforça a importância da escola como ambiente estratégico de intervenção contra o sedentarismo).
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Diretrizes da OMS para atividade física e comportamento sedentário: num piscar de olhos. Genebra: OMS, 2020. (Documento base que chancela os dados de 80% de inatividade física na adolescência).



