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O impacto estrutural do fim da escala 6×1 no setor fitness

Colunista: Joana Doin

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O debate sobre o fim da escala 6×1 deixou de ser apenas uma pauta de reivindicação trabalhista para se tornar o epicentro de uma mudança estrutural iminente em diversos setores da economia. Em maio de 2026, a Câmara dos Deputados aprovou, em dois turnos, a PEC 221/2019, que reduz a jornada semanal máxima de 44 para 40 horas e garante duas folgas semanais, uma delas preferencialmente aos domingos. O texto segue agora em análise no Senado, ainda sem data confirmada de votação em plenário, mas com expectativa de que o tema avance nas próximas semanas. Mercados que dependem de funcionamento contínuo já acenderam o sinal de alerta e, entre eles, o setor fitness, que abrange academias, estúdios e boxes de cross, é, sem dúvida, um dos que sofrerão os impactos mais profundos.

O motivo é simples: o funcionamento de 16 a 18 horas por dia, de segunda a segunda, divide a operação das academias em duas realidades. Se a área técnica muitas vezes opera com mão de obra pulverizada, a infraestrutura depende de uma base sólida. Para sustentar essa base, a escala 6×1 consolidou-se como o padrão da indústria. É ela que viabiliza a cobertura contínua do núcleo celetista e mensalista (como equipes de recepção, limpeza, manutenção e atendimento) sem a necessidade de um quadro gigantesco de funcionários.

A análise econômica tradicional frequentemente resume o problema ao aumento dos custos trabalhistas. Contudo, no “chão da academia”, o maior desafio é puramente operacional: não se trata apenas de pagar mais pela hora trabalhada, mas de manter a mesma disponibilidade de serviço utilizando menos horas de trabalho por funcionário.

A demanda não diminui e o aluno não muda sua rotina. A academia precisa continuar aberta nos picos das 6h da manhã e das 20h. Em um exemplo prático: uma equipe de 10 professores trabalhando 44 horas semanais oferece 440 horas de cobertura para o salão. Se a jornada cai para 40 horas, perdem-se 40 horas semanais de disponibilidade.

Como cobrir essa lacuna? Aumentar o quadro de funcionários (o que encarece encargos como INSS, FGTS, férias e benefícios) ou reduzir o horário de funcionamento, algo que afeta diretamente a percepção de valor do cliente?

Se a organização dos turnos é um quebra-cabeça, a folha de pagamento é um campo minado. O setor fitness possui uma particularidade que poucas indústrias enfrentam com tanta intensidade: a convivência diária de diferentes regimes de remuneração, o que transforma o Descanso Semanal Remunerado (DSR) em uma peça-chave — e perigosa — diante de qualquer mudança de escala.

Para os mensalistas (o núcleo que garante a abertura da academia, como recepção e manutenção), o DSR já compõe o salário fixo. O desafio, nesse caso, não é necessariamente o aumento imediato do custo, mas a engenharia gerencial: como conceder novas folgas semanais sem deixar a catraca desguarnecida?

O cenário ganha novos contornos quando olhamos para a mão de obra pulverizada. O professor horista, por exemplo, recebe o DSR calculado proporcionalmente às horas efetivamente trabalhadas. Se a nova legislação alterar a proporção matemática entre os dias úteis e os dias de repouso no mês, o custo real dessa hora-aula sofrerá impacto direto.

Já no caso das equipes comerciais e instrutores comissionados, a legislação determina que o descanso reflita a média da produtividade mensal. Redesenhar a jornada da academia sem colocar o reflexo do DSR desses três perfis na ponta do lápis é, na prática, flertar com um passivo trabalhista silencioso.

O desafio se soma a uma realidade já conhecida: o setor fitness opera com margens apertadas, entre aluguéis altos, equipamentos importados cotados em dólar e pesados custos de energia elétrica. Qualquer solavanco na folha de pagamento tem impacto imediato na saúde financeira da operação.

Além da questão financeira, há um complexo desafio regulatório. O mercado fitness é fortemente pautado por convenções coletivas de trabalho. Uma eventual mudança constitucional é apenas o primeiro passo: a PEC prevê um período de transição de 14 meses após a promulgação, prazo dentro do qual será necessário revisar e renegociar milhares de cláusulas, acordos de banco de horas e escalas de revezamento entre sindicatos patronais e profissionais. Quatorze meses parecem longos, mas, diante da reengenharia operacional exigida, tendem a passar rápido, e exigirão das empresas um planejamento jurídico e administrativo iniciado desde já, para evitar passivos trabalhistas.

Para fechar essa conta e manter sua posição no mercado, a tecnologia deixará de ser um item acessório e passará a ser um dos principais motores da eficiência operacional. O fim da escala 6×1 deve acelerar significativamente a transformação digital nos espaços fitness.

O QUE MUDA

Funções administrativas, de recepção e o setor comercial tendem a ser as primeiras áreas a incorporar soluções de automação. Catracas com reconhecimento facial, totens de autoatendimento, matrículas via aplicativo, contratos eletrônicos e o uso de Inteligência Artificial (IA) para qualificação de leads e atendimento via WhatsApp assumirão o protagonismo. A terceirização de equipes de limpeza também deve aumentar.

O QUE FICA (E SE VALORIZA)

Paradoxalmente, o papel do professor presencial ganhará ainda mais relevância. A IA consegue montar um funil de vendas, mas ainda não substitui, com segurança, a correção biomecânica de um exercício, a prevenção de lesões e a construção de vínculo motivacional com o aluno. O impacto dessa transição não será uniforme e deve acirrar ainda mais a concorrência.

GRANDES REDES (LOW COST)

Gigantes como Smart Fit, Bluefit e Selfit levam vantagem. Com tecnologia proprietária consolidada, gestão de escala nacional e robusta capacidade de investimento, essas redes conseguirão reorganizar suas jornadas (migrando para modelos 5×2, escalas híbridas ou banco de horas) com muito mais fluidez.

ACADEMIAS DE BAIRRO

Operando com estruturas enxutas, as pequenas e médias unidades sentirão a corda esticar. Para sobreviver sem repassar integralmente o custo para a mensalidade, o que causaria evasão de alunos, muitas adotarão estratégias defensivas. É provável que vejamos o fechamento de unidades aos domingos e a redução da grade de aulas em horários de menor movimento.

Há, contudo, um aspecto que merece atenção sob a ótica da gestão de pessoas. Embora a redução da jornada represente um desafio operacional, ela também pode contribuir para tornar o setor mais atrativo para profissionais qualificados. Historicamente, academias convivem com dificuldades para retenção de talentos, especialmente entre professores e consultores. Jornadas mais equilibradas tendem a favorecer a qualidade de vida, reduzir a rotatividade e aumentar o engajamento das equipes, fatores que, no médio e longo prazo, podem refletir em maior qualidade no atendimento e redução dos custos relacionados à constante contratação e treinamento de novos colaboradores.

A transformação mais profunda e silenciosa, no entanto, ocorrerá na cadeira da direção. Em um cenário com jornadas reduzidas, a gestão baseada no empirismo ou na simples exigência de horas extras não terá mais espaço. O fim da escala 6×1 forçará a transição definitiva do setor fitness de uma gestão puramente reativa para uma liderança estritamente orientada por dados. Ferramentas de Business Intelligence (BI), workforce management (gestão de força de trabalho), análise preditiva de demanda e engenharia sofisticada de escalas deixam de ser jargões corporativos e passam a ser os verdadeiros equipamentos de musculação para o caixa da empresa.

Outro aspecto frequentemente negligenciado é o impacto sobre a experiência do cliente. No setor fitness, a organização das jornadas de trabalho não afeta apenas a operação interna, mas influencia diretamente a percepção de valor do aluno. Reduções na oferta de horários, diminuição da grade de aulas ou menor disponibilidade de professores tendem a impactar a satisfação, a retenção e, consequentemente, a receita recorrente das academias. Em um mercado altamente competitivo, preservar a experiência do cliente durante esse processo de adaptação será tão importante quanto controlar os custos da operação.

Na prática, isso significa antecipar o dever de casa antes mesmo da promulgação da emenda: mapear a real necessidade de cobertura por unidade e turno, revisar desde já as cláusulas de escala e banco de horas nas convenções coletivas da categoria e abrir o diálogo com os sindicatos patronais e profissionais antes que o prazo de transição comece a correr. As academias que não se adaptarem a essa nova musculatura gerencial e jurídica correm o sério risco de atrofiar e, no fitness como no direito, quem espera a lei entrar em vigor para começar a se preparar já começa atrasado.

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