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O imposto sobre o bem-estar

Colunista: Thiago Villaça

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Como o Brasil pune quem promove saúde e depois paga a conta da própria negligência?

Pense nisso por alguns segundos. Porque quando você enxergar a lógica por trás dessa conta, será difícil aceitar que ninguém tenha discutido isso com a seriedade que o tema merece.

O país tributa o ecossistema da saúde e uma infinidade de profissionais que dedicam a vida a reduzir obesidade, diabetes, hipertensão, depressão e ansiedade da mesma maneira que tributa uma loja de shopping ou um restaurante fast food.

Você acha isso certo?

Depois, quando essas doenças inevitavelmente aparecem em uma população sedentária e emocionalmente exausta, o mesmo Estado desembolsa quantias muito maiores para tratar aquilo que poderia ter sido evitado.

Em qualquer academia, isso teria um nome: treinar errado.

Em qualquer empresa privada isso teria o diagnóstico de “má alocação de recursos”.

Mas no setor público, isso virou rotina.

A conta que ninguém parece querer enxergar

Diversos estudos da World Health Organization, do Centers for Disease Control and Prevention e da Organisation for Economic Co-operation and Development mostram que programas de prevenção e promoção da saúde tendem a gerar economias múltiplas ao longo do tempo, frequentemente na ordem de R$ 4 a R$ 6 para cada R$ 1 investido, dependendo da intervenção e do horizonte analisado.

Traduzindo para a linguagem do empresário:

Poucos investimentos no mundo oferecem um retorno potencial de 400% a 600% enquanto, simultaneamente, reduzem o sofrimento humano.

Imagine aplicar R$ 100 mil e, em vez de recuperar apenas o capital com juros, economizar entre R$ 400 mil e R$ 600 mil em internações, medicamentos, cirurgias, afastamentos do trabalho e perda de produtividade.

Se isso existisse na bolsa de valores, haveria fila de investidores.

Mas como esse retorno vem em forma de menos doença, menos dor e menos gastos hospitalares, ele continua sendo subestimado.

O exemplo real do IPTU

No Vooga Fitness, pago aproximadamente R$ 35.000 por ano de IPTU.

À primeira vista, isso parece apenas mais uma conta.

Mas, à luz da economia da prevenção, esse número assume outra dimensão.

Se esse valor fosse integralmente convertido em incentivo para um negócio que promove atividade física, nutrição e hábitos saudáveis, o potencial de economia para o sistema de saúde poderia variar entre:

  • R$ 140.000 por ano (retorno de 4 para 1).
  • R$ 210.000 por ano (retorno de 6 para 1).

Ou seja:

Ao isentar R$ 35 mil em IPTU de uma empresa que produz saúde, o Estado poderia economizar até R$ 210 mil em custos futuros com doença.

Isso não é renúncia fiscal. Isso é investimento com retorno mensurável.

O Estado age como o aluno que ignora o treinador

Todo profissional da saúde conhece esse perfil: o aluno sedentário, hipertenso, acima do peso, ansioso, dormindo mal, com exames alterados, mas que insiste em adiar o início do treino.

Meses depois, aparece com dores, limitações e, às vezes, consequências muito mais graves. O custo emocional, físico e financeiro torna-se incomparavelmente maior. O Estado brasileiro faz exatamente a mesma coisa.

Em vez de incentivar a prevenção, espera a lesão metabólica se instalar.

Em vez de estimular o treino, prefere pagar a reabilitação.

Em vez de fortalecer a musculatura do sistema, aguarda o colapso.

É como recusar-se a treinar e depois reclamar do preço da cirurgia.

O profissional de Educação Física no epicentro do ecossistema

Praticamente todas as áreas da saúde recomendam atividade física.

O cardiologista recomenda.
O endocrinologista recomenda.
O psiquiatra recomenda.
O psicólogo recomenda.
O nutricionista recomenda.
O fisioterapeuta recomenda.
O clínico geral recomenda.

Mas existe um profissional legalmente habilitado para transformar essa recomendação em dose, frequência, intensidade e progressão:

O profissional de Educação Física.

Da mesma forma que o médico prescreve medicamentos em miligramas, o educador físico prescreve exercício em minutos, séries, repetições, zonas de frequência cardíaca, ritmo e carga e isso tem nome: volume de treino!

Ele não “dá aula”.

Ele prescreve uma intervenção capaz de:

  • reduzir obesidade;
  • controlar diabetes tipo 2;
  • diminuir pressão arterial;
  • melhorar depressão e ansiedade;
  • prevenir infarto e AVC;
  • aumentar autonomia funcional;
  • elevar produtividade;
  • reduzir afastamentos laborais.

Em outras palavras:

O profissional de Educação Física é um redutor de custos hospitalares, mitigador de riscos atuariais, promotor de produtividade e agente de saúde pública.

E ao seu redor existe um poderoso ecossistema de prevenção.

O ecossistema econômico da saúde

A cadeia produtiva da saúde preventiva inclui:

  • academias e estúdios;
  • assessorias de corrida;
  • nutricionistas;
  • psicólogos e profissionais de saúde mental;
  • fisioterapeutas;
  • odontólogos;
  • enfermeiros;
  • médicos;
  • laboratórios;
  • operadoras de saúde;
  • eventos esportivos;
  • fabricantes de equipamentos;
  • revistas especializadas;
  • criadores de conteúdo;
  • pesquisadores e cientistas.

Todos trabalham, direta ou indiretamente, para produzir um ativo econômico de valor extraordinário: uma população mais saudável, produtiva e menos onerosa para o sistema.

A ironia que beira o absurdo

O Brasil tributa com a mesma lógica:

  • quem prescreve exercício,
  • quem ensina a dormir melhor,
  • quem trata ansiedade,
  • quem orienta alimentação,
  • quem previne doenças,
  • e também quem vende produtos e hábitos que contribuem para o adoecimento.

É como cobrar o mesmo imposto de um treinador que fortalece o joelho e de alguém que vende aquilo que acelera sua degeneração. Não faz sentido fisiológico. Não faz sentido econômico. Não faz sentido moral.

Propostas para uma nova economia da prevenção

1. Academias e estúdios como infraestrutura de saúde

Reconhecimento tributário compatível com sua função sanitária e econômica. Empresas que atuam diretamente com prescrição de atividade física e hábitos saudáveis, hoje, são classificadas como “esporte e lazer”! Isso tem que mudar para serem classificadas como empresas da saúde e do bem-estar.

2. Cashback da saúde

Benefícios fiscais e financeiros para pessoas que comprovem entre 75 e 300 minutos semanais de atividade física moderada a vigorosa. Seja no plano de saúde ou em consultas com médicos especialistas.

3. Planos de saúde inteligentes

Descontos, upgrades e condições diferenciadas para beneficiários fisicamente ativos.

4. Voucher da saúde

Modelo inspirado em políticas educacionais, permitindo que populações de baixa renda acessem exercício, nutrição, psicologia, odontologia, exames e empresas parceiras sejam beneficiadas por aderir ao programa.

5. Incentivos ao ecossistema

Redução de carga tributária para empresas, profissionais e fornecedores que comprovadamente promovam saúde.

6. Estímulo a eventos e comunicação

Incentivos para organizadores de corridas, revistas especializadas, pesquisadores e criadores de conteúdo voltados à promoção de hábitos saudáveis.

7. Estilo de vida mais acessível

Políticas para baratear alimentos minimamente processados e de maior densidade nutricional. Não faz sentido um alimento “integral” ser mais caro ou ter o mesmo preço de um alimento ultraprocessado na gôndola do supermercado. Como é possível a gente criar barreiras econômicas para as pessoas consumirem produtos mais saudáveis?

Esse último exemplo escancara o quão primitivo é o pensamento sobre o ecossistema da saúde!

O ROI mais ignorado do Brasil

Empresários entendem de retorno sobre investimento. Atletas entendem sobre estimulo e adaptação. Treinadores entendem de sobrecarga progressiva.

A prevenção segue exatamente a mesma lógica. Pequenos estímulos consistentes geram grandes adaptações ao longo do tempo.

No treinamento, isso se chama evolução. Na economia, isso se chama eficiência. Na saúde pública, isso deveria se chamar prioridade nacional.

A pergunta que o Brasil precisa responder

Se cada R$ 1 investido em prevenção pode economizar de R$ 4 a R$ 6 em tratamentos futuros, por que ainda tributamos quem promove saúde como se estivesse oferecendo apenas lazer?

Por que premiamos financeiramente a consequência e punimos quem é capaz de agir na causa?

Por que esperamos o infarto, a amputação, a crise de ansiedade e a depressão se instalarem para só então agir?

O manifesto final

Em outubro de 2026, o Brasil precisa decidir se continuará arrecadando sobre a prevenção e gastando fortunas com a doença, ou se finalmente reconhecerá aquilo que qualquer bom treinador já sabe.

É infinitamente mais inteligente fortalecer o organismo antes da lesão do que reconstruí-lo depois do colapso.

Quem promove saúde não gera custo.

Gera economia e abre espaço para o país investir no combate ao crime organizado, à corrupção, à desigualdade e à pobreza!

Chegou a hora de o país entender que o investimento mais lucrativo de uma nação não está em máquinas, prédios ou commodities.

Está no corpo e na mente das pessoas que não adoecem!

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