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Aluno sedentário iniciante: o que considerar para prescrever o treinamento

Colunista: Mauro Guiselini

É inquestionável os malefícios da Pandemia do COVID – 19, são milhares de vítimas em todo o mundo e, segundo pesquisas, indivíduos com comorbidades, ao que tudo indica, tiveram maiores consequências; dentre inúmeros fatores, o sistema imunológico mais frágil e o nível de aptidão funcional apareceram como importantes indicadores.

Apesar de serem portadores de excelente nível de aptidão física, indivíduos ativos foram infectados; no entanto, parece que conseguiram melhores resultados no tratamento: o tempo de recuperação, a volta à condição física inicial foi melhor quando comparados com sedentários – os obesos, hipertensos, diabéticos, baixa capacidade funcional aeróbia sofreram muito mais para voltar à sua condição inicial.

Este quadro mundial, muito triste, teve, por assim dizer, o lado bom, pois foi consenso comum, entre os especialistas da área da saúde – médicos, nutricionistas, fisioterapeutas, profissionais de Educação Física, psicólogos, a importância da prática regular do exercício físico como uma das medidas preventivas – foi enfatizado, entre inúmeros benefícios, a melhoria do sistema imunológico, o equilíbrio emocional, a saúde mental, entre outros.

Praticar exercício regularmente, sob orientação de profissionais especializados, não só como medida preventiva, mas também como forma de ajudar na recuperação de inúmeras sequelas morfofuncionais e emocionais – indivíduos que foram infectados, muito embora estivessem em excelente forma física, em um curto espaço de tempo se tornaram extremamente descondicionados – tendo diminuição drástica da capacidade funcional aeróbia, força muscular, rápida perda de massa e força muscular (sarcopenia e dinapenia), coordenação motora reduzida – foram e são as orientações atuais. Sem dúvida, mais uma evidência da importância do profissional de Educação Física para a prevenção, recuperação e manutenção da aptidão física relacionada à saúde e bem-estar.

Dados importantes

Exercitar-se regularmente se tornou, portanto, uma prática imprescindível principalmente para a população sedentária, muito embora os seus benefícios já, há muitos anos, tenham sido objeto de divulgação, estudos e pesquisas que comprovam a eficácia do exercício físico; já foi inclusive identificado “Exercício como Remédio”, sendo uma das tendências do fitness pesquisadas pelo American College of Sports Medicine (ACSM).

Segundo relatos, parece que está ocorrendo um fato interessante no Mundo Fitness & Wellness – “novos alunos – sedentários, sem experiências anteriores”, procurando as Academias, Studios, Personal Trainers, Clínicas, entre outros locais. Esta é uma boa notícia, pois o número dessa população no nosso país é muito grande e isso significa que, sob o ponto de vista comercial, temos excelentes perspectivas. O número de matrículas ser maior do que as renovações dos alunos ativos ou a volta de alunos antigos, é, sem dúvida, uma excelente notícia.

Um alerta!

Precisamos estar preparados para receber esse novo público – adultos e idosos sedentários, sem experiências anteriores que, em curto espaço de tempo será, sem dúvida, a grande maioria dos praticantes… Porém, faz-se necessária a adoção de algumas medidas para que não ocorra o que atualmente acontece:

  • O Departamento de Marketing divulga, traz o aluno/cliente até a “boca do caixa”!
  • O Departamento Comercial vende o plano $$$$$
  • O Departamento Técnico… o que acontece? Não tem conseguido encantar o cliente!

Este é o ciclo vicioso que tenho visto nos últimos 37 anos, época que comecei a trabalhar nas Academias de Ginástica, como Diretor Técnico e Professor: o aluno vem, inicia o treinamento e, em um espaço de tempo não muito longo, a grande maioria desiste, apesar de todas as evidências que comprovam a eficácia do exercício físico regular. É sem dúvida, um grande desafio, já comentei sobre isto em artigos anteriores.

Uma possível alternativa

Realmente, salvo melhor juízo, ainda não temos, até então, a fórmula mágica para evitar o fenômeno da pouca aderência: conseguir fazer com que o aluno/cliente permaneça por longo tempo se exercitando.

Sem a pretensão de fornecer uma fórmula resolutiva para tal situação que, realmente é extremamente complexa, pois estamos tratando de indivíduos para os quais, em sua grande maioria, o exercício físico não é algo prioritário, prazeroso e, então, eu recomendo um olhar mais detalhado para o que se segue.

Vamos prestar muita atenção ao perfil desse novo aluno/cliente, talvez seja um caminho viável para conquistá-lo; o que apresento a seguir é resultado de milhares de horas de estudo e não menos de atendimento para alunos/clientes de aulas coletivas e treinamento personalizado, nestes últimos 37 anos, conforme citei acima. Vejamos, abaixo, algumas características desse “novo público”.

Características dos alunos/clientes iniciantes, sedentários e sem experiências anteriores

Os indivíduos sedentários, sem experiência, são aqueles que, ao longo do dia, gastam muito poucas calorias adicionais (Guiselini, 2016), que não têm experiências motores anteriores na prática regular de exercícios físicos (ginástica, musculação, por exemplo), esportes, lutas, artes marciais e dança. É, talvez, a grande maioria das pessoas comuns, que realizam somente o mínimo de atividades cotidianas, com pouco movimento, que, inclusive, devem ter participado muito pouco das aulas de Educação Física escolar.

Pelo simples fato de não terem experiências anteriores, um estilo de vida não saudável, têm como características psicofísicas:

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  • As capacidades funcionais resistência aeróbia/anaeróbia, força muscular, mobilidade/flexibilidade são pouco desenvolvidas, o controle neuromotor é comprometido decorrente da pouca coordenação motora, equilíbrio e estabilidade. Os movimentos são desarmoniosos e, não raro, com assimetrias.
  • Alterações morfológicas caracterizando, de maneira geral, o aumento da massa gorda e diminuição da massa magra. Para muitos, tem o início da osteopenia, sarcopenia e dinapenia, cerca de 60% ou mais são pré-obesos ou obesos.
  • Estão incialmente motivados para iniciar o programa de treinamento como meta/objetivos relacionados à estética (emagrecimento), melhoria da condição física e sentir-se melhor. Muitos provavelmente estão por indicação médica – apresentam a síndrome metabólica.
  • Com muito esforço, venceram as objeções para iniciarem um programa de treinamento, muito embora, conforme comentamos, o exercício físico não é algo prazeroso, preferem outras formas de prazer – comida, por exemplo.
  • Precisam de muito estímulo, atenção e motivação para treinar; descobrir modalidades de exercícios que sejam “agradáveis”, é um grande desafio. Sentirem-se acolhidos é algo muito importante.

Sugestões de procedimentos

  • Atendimento com acolhimento: contar com profissionais preparados para atender os alunos/clientes que não têm, até então, o exercício como prioridade.
  • Realizar o diagnóstico, incluindo uma excelente anamnese, aplicação de testes que propiciam a informação detalhada das reais condições neuromotoras, compatibilizando as meta/objetivos com as necessidades.
  • Estabelecer um bom sistema de relacionamento, com acompanhamento sistemático da evolução/concretização de resultados.
  • Tornar o treinamento uma experiência de sucesso onde seja possível mostrar, sistematicamente, os efeitos crônicos e agudos do exercício.

Seguramente existem outras estratégias onde é de fundamental importância a integração entre os vários departamentos, no caso das academias, para manter a conectividade com o aluno/cliente.

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