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A economia do atalho: quando a farmácia vira concorrente da academia

Por que pagar R$ 1.500 por uma caneta emagrecedora parece mais atraente do que investir R$ 300 na mensalidade de uma academia? Ou pior ainda, por que as pessoas não estão dispostas a vestir um tênis e iniciar a rotina de caminhar na rua?

Existe algo acontecendo no mercado da saúde que precisa ser analisado, não do ponto de vista da fisiologia ou da farmacologia, mas da filosofia.

A pergunta mais profunda talvez seja esta:

Por que o ser humano prefere soluções que reduzem sua responsabilidade, mesmo quando sabe que elas não são as que mais transformam sua vida?

Mais de dois mil anos atrás, Buddha já ensinava que grande parte do sofrimento humano nasce do desejo por atalhos. Queremos resultado sem processo, prazer sem esforço, recompensa sem transformação.

O que Buddha — assim como muitos outros pensadores e tradições espirituais — ensinava é que resultados duradouros nascem de esforço, repetição, disciplina e resiliência. À soma dessas forças nós chamamos de hábito.

O mercado moderno, por outro lado, seduziu o ser humano com outra promessa: conquistar resultados com conforto, automação, pouca dedicação e sem nenhum questionamento a respeito do preço que a pessoa está disposta a pagar para conquistar o resultado.

Toda essa ausência de protagonismo se manifesta na forma de vitórias vazias, conquistas sem significado, glória sem celebração. Um mundo onde o ser humano perdeu a capacidade de ser protagonista dá espaço para um lugar onde a motivação está em “não ser um derrotado”, um lugar onde superar os obstáculos “não é mais do que a sua obrigação” e onde o esforço deixou de ser motivo de orgulho para se tornar “o mínimo esperado”. Não é à toa que, a cada ano que passa, questões ligadas à saúde mental tem se tornado cada vez mais relevantes!

Dito isso, quando alguém paga R$ 1.500 por mês por uma caneta emagrecedora, essa pessoa não está pagando apenas por um medicamento.

Na cabeça dela, ela está pagando para ter resultado sem sofrer, sem precisar se dedicar, sem precisar de disciplina, sem sair de casa, sem frequentar um ambiente que muitas vezes parece hostil, sem se comparar com outras pessoas…

Agora me responda com toda franqueza: é ou não é o melhor negócio do mundo?

Para efeito quase depressivo, convido o leitor a se perguntar:

Quando uma pessoa decide fazer exercício com orientação profissional, o que exatamente passa pela cabeça do cliente quando ele está comprando?

Na maioria das vezes, uma experiência previsível: colaboradores pouco comprometidos, treinos chatos e repetitivos, pouca atenção individual e quase nenhuma conexão emocional com o ambiente.

Falta pertencimento.
Falta acolhimento.
Falta hospitalidade.

Falta, sobretudo, a sensação de que alguém está realmente interessado na transformação daquela pessoa, quiçá no ser humano que existe por trás daquele objetivo!

Tudo isso entra na conta da decisão. No fim das contas, a escolha entre o medicamento e a academia não é apenas financeira. É uma escolha entre probabilidade de resultado e frustração conhecida.

O medicamento promete reduzir o esforço da decisão e o fardo da decepção.

A economia do atalho diz que a experiência de quem busca saúde sem hospitalidade, sem acolhimento, incapaz de vínculo afetivo e que não gera pertencimento faz o medicamento parecer barato!

Talvez por isso, Sócrates tenha dito algo que continua atual até hoje: o maior desafio da vida não é adquirir conhecimento, mas viver de acordo com aquilo que já sabemos.

Quase todo mundo sabe o que precisa fazer.

Dormir melhor.
Comer melhor.
Mover o corpo.
Treinar com consistência.

O problema nunca foi falta de informação. O problema é que a sabedoria exige prática. E a prática exige esforço. No fim das contas, o sucesso comercial das canetas emagrecedoras revela menos sobre farmacologia e mais sobre natureza humana!

Dito isso, é bem provável que a busca pela “ausência do esforço” seja o caminho para “ausência de sabedoria”.

Tomara que eu esteja enganado!