De tempos em tempos surge uma inovação capaz de reorganizar mercados inteiros. Tecnologias e produtos com esse perfil ultrapassam rapidamente os limites do setor em que foram criados e passam a influenciar comportamentos em diferentes áreas da economia. Esse parece ser o caso dos medicamentos baseados em incretinas, como o Mounjaro, cujo princípio ativo é a tirzepatida.
Nos últimos meses, o chamado “efeito Mounjaro” passou a chamar atenção não apenas da comunidade médica, mas também de profissionais do bem-estar, gestores de academias e empreendedores do segmento fitness. O motivo é simples: medicamentos dessa classe vêm promovendo perdas de peso expressivas e mudanças significativas no comportamento alimentar.
Uma publicação recente do Pedro Superti (Instagram, 2025a), especialista em Marketing, chamou atenção para esse fenômeno ao destacar que, periodicamente, algumas inovações surgem com capacidade de alterar não apenas seu mercado original, mas toda a dinâmica de consumo e comportamento ao seu redor. Esse parece ser exatamente o caso dos medicamentos que atuam nos receptores hormonais ligados à regulação do apetite.
Sinais dessa transformação já começam a aparecer em diferentes setores. O presidente da rede Assaí Atacadista, Belmiro Gomes, afirmou recentemente que medicamentos baseados em GLP‑1 já começam a influenciar o comportamento de compra nas lojas da rede, com queda na compra de bebidas alcoólicas e aumento gradual na procura por proteínas (Instagram, 2025b).
Esse dado é particularmente interessante porque sugere que o impacto desses medicamentos pode ir além da perda de peso, influenciando escolhas alimentares e padrões de consumo.
Outra reflexão importante da Endocrinologista Leylane Fontana (Instagram, 2025c) sobre o tema aponta que o impacto desses medicamentos não está apenas na redução da ingestão calórica, mas na diminuição do chamado “ruído alimentar”, permitindo que muitas pessoas recuperem a capacidade de dizer não a impulsos relacionados ao consumo imediato.
Se essa interpretação estiver correta, estamos diante de um fenômeno que envolve não apenas fisiologia, mas também comportamento.
Essa afirmação me fez lembrar uma conversa que tive com um Cirurgião Plástico no Rio. Havia uma aluna no estúdio Vida Ativa (2011) que tinha acabado de fazer uma abdominoplastia e decidi buscar mais detalhes sobre o procedimento com o médico para melhor atender a nossa cliente em comum. Lembro de ter começado o diálogo dizendo que éramos concorrentes. E foi nesse momento que aprendi que estava errado. Ele me explicou que muitas pessoas buscam a cirurgia plástica como estratégia de motivação para começar ou continuar treinando em academia. Ao passar por um procedimento estético como a abdominoplastia ou a lipoaspiração, o paciente é orientado a procurar um Nutricionista para uma reeducação alimentar, assim como um Professor de Educação Física para a prática regular e orientada de atividades físicas com o objetivo de manter o resultado conquistado com a cirurgia.
Quantas pessoas você conhece que realizaram até cirurgia bariátrica e recuperaram o peso anterior? Algumas pessoas percebem o Mounjaro como o pontapé inicial para mudança de hábito.
O que a ciência já demonstra
A tirzepatida atua mimetizando hormônios envolvidos na regulação metabólica, especialmente aqueles relacionados ao controle da glicemia e da saciedade. Ensaios clínicos demonstraram que pacientes tratados com esse medicamento podem apresentar reduções superiores a 20% do peso corporal em alguns protocolos de tratamento (Jastreboff et al., 2022).
Além da perda de peso, pesquisas também indicam melhora significativa em indicadores metabólicos, incluindo controle glicêmico, perfil lipídico e risco cardiovascular.
Entretanto, os estudos também apontam desafios importantes.
Um deles é que parte do peso perdido pode incluir massa magra, especialmente quando o tratamento não é acompanhado por intervenções de estilo de vida adequadas. Revisões recentes indicam que o treinamento de força e a ingestão adequada de proteínas são estratégias fundamentais para preservar a massa muscular durante processos intensos de perda de peso.
Outro ponto relevante é a manutenção dos resultados. Estudos de acompanhamento mostram que uma parcela significativa dos pacientes tende a recuperar parte do peso perdido após a interrupção do tratamento farmacológico quando não há mudanças consistentes no estilo de vida.
Essas evidências reforçam uma ideia importante para o mercado fitness: emagrecer não é o mesmo que construir saúde.
O novo desafio para o profissional de Educação Física
Diante desse cenário, surge uma mudança importante de perspectiva.
A pergunta que durante algum tempo dominou o debate foi:
“As pessoas deveriam usar esses medicamentos?”
Na prática, milhões de pessoas já tomaram essa decisão com seus médicos.
Para os profissionais de Educação Física, a pergunta mais relevante passa a ser outra:
“Como acolher, orientar e acompanhar essas pessoas para que o uso dessas ferramentas contribua para uma vida mais saudável e longeva?”
É exatamente nesse ponto que o conceito do Círculo do Cuidar ganha importância.
Acolher
Cada vez mais academias receberão alunos que estão utilizando medicamentos para emagrecimento ou que passaram recentemente por perdas rápidas de peso.
Essas pessoas frequentemente chegam com dúvidas, inseguranças e, em muitos casos, com baixa massa muscular e pouca experiência prévia com treinamento estruturado.
O primeiro passo não é julgamento. É acolher com respeito e escuta ativa.
Cabe ressaltar o papel fundamental da avaliação física, ou o nome que você preferir, para esse momento de contato um para um com essa pessoa que acaba de procurar o seu modelo de negócio fitness, pois mais perigoso do que a dúvida é o silêncio. Essa conversa individualizada é a nossa grande oportunidade de conhecer os detalhes da rotina, se faz uso de alguma medicação, qual a atividade física preferida, se apresenta alguma comorbidade (diabetes ou hipertensão, por exemplo), dentre outras informações que irão contribuir para uma prescrição segura, eficiente e motivante.
Orientar
O foco do treinamento precisa mudar.
Em vez de concentrar esforços apenas na redução do peso corporal, o trabalho do profissional passa a enfatizar:
- preservação da massa muscular;
- desenvolvimento de força;
- melhora da capacidade funcional;
- construção de hábitos sustentáveis de movimento.
Nesse contexto, o treinamento resistido torna-se um aliado fundamental para equilibrar os efeitos fisiológicos da perda de peso acelerada.
Acompanhar
Talvez o momento mais crítico do processo aconteça quando o tratamento medicamentoso diminui ou termina.
Sem acompanhamento profissional e sem mudanças consistentes no estilo de vida, o risco de recuperar peso aumenta significativamente.
Por outro lado, quando o exercício físico, a orientação profissional e o acompanhamento contínuo fazem parte da rotina do indivíduo, o medicamento pode funcionar como uma ponte para transformações mais duradouras.
O futuro do fitness no “efeito Mounjaro”
O surgimento de medicamentos capazes de acelerar o emagrecimento não representa necessariamente uma ameaça ao setor fitness.
Na verdade, pode representar uma oportunidade de reposicionamento.
Se o século XX associou academias principalmente ao emagrecimento e à estética corporal, o século XXI pode consolidar o fitness como um pilar essencial da longevidade saudável.
Medicamentos podem ajudar a reduzir o peso corporal.
Mas somente o movimento, o treinamento e o acompanhamento humano são capazes de desenvolver força, autonomia funcional e qualidade de vida ao longo das décadas.
É exatamente esse o propósito do Círculo do Cuidar:
- acolher quem chega sem julgamento, com escuta ativa, respeito e empatia;
- orientar de forma segura, eficiente e motivante;
- acompanhar recalculando rotas e comemorando pequenas vitórias para sustentar resultados saudáveis com embasamento científico sem perder a conexão humana.
Em um mundo onde a medicina acelera o emagrecimento, os professores de Educação Física podem assumir um papel ainda mais relevante: transformar perda de peso em saúde duradoura.
Referências
Instagram. (2025a). Reel sobre inovação e impacto de novas tecnologias no comportamento de consumo. Disponível em https://www.instagram.com/reel/DUV2eUYDUFJ/
Instagram. (2025b). Post sobre mudanças no consumo relatadas pelo presidente do Assaí. Disponível em https://www.instagram.com/p/DUF5Q1dCLhg/
Instagram. (2025c). Post sobre redução do “ruído alimentar” e autocontrole no uso de medicamentos para emagrecimento. Disponível em https://www.instagram.com/p/DUbwvE4j0fI/
Jastreboff, A. M. et al. (2022). Tirzepatide once weekly for the treatment of obesity. New England Journal of Medicine, 387, 205-216.