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O futuro do mercado fitness passa pela criação de ecossistemas

Colunista: Thiago Villaça

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E quem não entender isso agora vai disputar um jogo cada vez menor.

Existe uma diferença clara entre empresas que prosperam e empresas que apenas sobrevivem. No mercado fitness, essa diferença está ficando cada vez mais evidente — e, nos próximos anos, ela vai separar definitivamente quem lidera de quem apenas reage.

Quando falamos em ecossistemas, não estamos falando de um modismo de negócios ou de uma palavra bonita para apresentações em PowerPoint. Estamos falando de uma lógica de crescimento já testada, validada e amplamente utilizada por empresas globais. Um ecossistema é a capacidade de uma marca orquestrar múltiplas soluções, serviços e experiências ao redor do mesmo cliente, em diferentes momentos da vida, necessidades e níveis de poder aquisitivo — sem perder o controle da relação com ele.

Um exemplo clássico fora do fitness é a Nestlé. Ela não vende apenas comida; ela vende nutrição. E dentro da nutrição, cria subuniversos claros: gestantes, bebês, crianças, adultos, idosos, suplementação clínica e alimentação funcional. O cliente entra por um produto simples e, ao longo do tempo, é conduzido para outras soluções dentro do mesmo sistema. Isso é ecossistema. Não é diversificação aleatória, é expansão estratégica da relação com o cliente.

No fitness, o primeiro grande player brasileiro que entendeu isso com clareza foi a Smart Fit. Inicialmente, ela construiu escala com academias físicas de baixo custo. Mas o movimento realmente disruptivo aconteceu quando percebeu que o ativo mais valioso não era o prédio nem os equipamentos, e sim o acesso ao cliente.

Ao criar produtos de acesso, como o Total Pass — planos que permitem ao usuário treinar em diferentes academias, inclusive fora da rede própria — a Smart Fit deixou de ser apenas uma operadora de academias para se tornar uma plataforma. O consumidor paga ao Total Pass (leia-se Smart Fit), a Smart Fit remunera outras academias, e o relacionamento central permanece com ela. Isso muda completamente o jogo. O que antes era concorrência direta passa a ser, em muitos casos, dependência indireta.

Quando a empresa se consolidou como multinacional, ficou claro que crescer não significava apenas abrir mais unidades do mesmo modelo. Era preciso capturar outros segmentos, especialmente aqueles que não se sentiam plenamente atendidos pelo low cost. Surge então, a expansão para estúdios, serviços personalizados e experiências premium. A aquisição da Velocity segue exatamente essa lógica: não competir com a própria base, mas ampliar o ecossistema.

Hoje, olhando o mercado brasileiro com distanciamento estratégico, é difícil identificar qualquer outro player disputando esse mesmo tabuleiro. Não se trata apenas de quantidade de unidades ou faturamento. Trata-se de visão sistêmica. E, nesse ponto, a Smart Fit nada praticamente sozinha.

Essa ausência de competição gera duas perdas relevantes para o mercado. A primeira é evidente: receita transacional, com várias empresas disputando o mesmo cliente com os mesmos serviços. A segunda é mais grave: a perda de oportunidade de inovação estrutural, capaz de manter o mesmo cliente consumindo diferentes produtos e serviços dentro de um mesmo ecossistema.

O modelo tradicional entende que o ciclo de consumo do cliente tem início, meio e fim. Ele entra, consome, enjoa, troca e sai. O modelo de ecossistema entende que o ciclo não termina — ele se transforma. O cliente muda de fase, de objetivo, de intensidade ou de poder aquisitivo, mas continua existindo. Em um ecossistema, o cliente não encerra contrato; ele transita. Sai da musculação para o estúdio, do estúdio para o digital, do digital para o presencial. Muda o formato, mas permanece no sistema.

Enquanto o modelo tradicional substitui clientes que saem, o ecossistema reaproveita clientes que evoluem. Um aceita o churn como inevitável. O outro enxerga churn como falha de desenho estratégico.

O mercado fitness precisa de uma guerra fria

A analogia é simples. A Guerra Fria, apesar de todo o seu contexto sombrio, foi um dos maiores motores de desenvolvimento tecnológico da história. GPS, satélites, avanços médicos e computacionais nasceram de um ambiente de competição estratégica intensa. O mesmo acontece na Fórmula 1: tecnologias testadas no limite chegam, anos depois, aos carros comuns.

Mercados sem competição estratégica evoluem mais devagar. Quando ninguém pressiona o líder, o ritmo de inovação passa a ser ditado apenas pelo interesse interno da empresa dominante. Hoje, o mercado fitness brasileiro perde velocidade porque não existe uma “guerra fria” de ecossistemas acontecendo.

Isso nos leva à pergunta central: onde estão os players dispostos a disputar esse espaço?

Redes como Bodytech, Selfit, Bluefit, Lifefit, Pano Bianco e Ironberg têm marca, capilaridade e know-how para atender os mesmos segmentos que o ecossistema da Smart Fit atende com folga. Então por que não fazem? O que falta para surgirem o BTpass, o Selfpass, o Lifepass, o Biancopass ou o Ironpass?

A pergunta fica ainda mais relevante quando lembramos que o fitness vende acesso. Mas e se alguém, além do acesso, resolvesse vender hospitalidade, luxo e experiência? A Smart Fit não nasceu no luxo, não vende hospitalidade e entende experiência como equipamento funcionando. Isso faz com que ela perca uma enorme oportunidade de gerar pertencimento, engajamento comunitário e liderança em nichos específicos.

Nesse cenário, o espaço para um ecossistema baseado em hospitalidade, experiência e personalização profunda — ágil, acolhedor e conectado à comunidade local — ainda está aberto.

O problema é que muitas empresas continuam pensando em unidade, mensalidade e serviço principal. O futuro, porém, não será decidido por quem tem a melhor sala de musculação, mas por quem conseguir responder a uma pergunta simples e brutal: como estar presente na vida do cliente em mais momentos, com mais soluções, sem depender de um único produto?

Criar um ecossistema não é abandonar o core business. É expandir sua lógica. Estúdios especializados, plataformas digitais, serviços de saúde integrados, programas corporativos, produtos educacionais, experiências fora do ambiente físico, clubes de benefícios e modelos híbridos de acesso podem — e devem — orbitar a mesma marca, os mesmos dados e a mesma relação com o cliente.

O empresário não acorda pensando em “fazer o bem”. Ele pensa em margem, crescimento, valuation e sustentabilidade. Mas, muitas vezes, o caminho mais lucrativo passa justamente por resolver melhor os problemas reais. Ecossistemas reduzem churn, aumentam lifetime value, criam barreiras de saída e transformam concorrentes em parceiros.

O mercado fitness brasileiro ainda tem espaço — e tempo — para criar alternativas robustas ao ecossistema da Smart Fit. Mas esse tempo não é infinito. Quem insistir no modelo tradicional vai disputar um mercado cada vez menor. Quem enxergar o jogo maior pode liderar a próxima fase do setor.

A pergunta final não é se os ecossistemas vão dominar o fitness. Isso já está acontecendo. A pergunta é: quem vai ter coragem estratégica de construí-los antes que seja tarde demais?

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