Nessa coluna, continuo com a colaboração da visão e conhecimento do Dr. Ricardo Urso, professor universitário, fisioterapeuta, faixa-preta de Jiu-Jitsu, especialista em Fisioterapia Desportiva, Traumato-Ortopedia, Empreendedorismo e Gestão de Franquias.
Ao longo da vida profissional, a grande virada de chave no futebol brasileiro, no entanto, passa obrigatoriamente pelo Flamengo. Um clube que por décadas alternou momentos de glória esportiva com vexames administrativos, dívidas crescentes, gestões obscuras e, por vezes, quase circenses. Em 2012, um grupo de flamenguistas oriundos do mundo corporativo decidiu romper com essa lógica. Em 2013, a chapa liderada por Eduardo Bandeira de Mello assumiu o clube com uma proposta clara: profissionalizar a gestão.
A primeira grande decisão foi simbólica e prática ao mesmo tempo: contratar uma das maiores empresas de auditoria do mundo para passar o clube a limpo. O diagnóstico foi duro, mas necessário. Uma dívida que se aproximava de 800 milhões de reais foi exposta de forma transparente. A partir dali, o Flamengo iniciou um processo raro no futebol brasileiro: austeridade fiscal, responsabilidade jurídica e planejamento esportivo. Medalhões foram dispensados, contratos revistos, credores renegociados. Durante três a quatro temporadas, o clube conviveu com elencos abaixo de sua tradição e até com riscos esportivos, mas construiu algo muito mais valioso: previsibilidade financeira.
Entre 2017 e 2018, os resultados esportivos ainda não refletiam plenamente a nova estrutura, mas o clube já apresentava receitas crescentes, melhora de imagem, fortalecimento da base e contratos mais robustos de patrocínio e direitos de transmissão. Em 2019, o Flamengo mudou definitivamente de patamar. Aquele ano representou uma convergência rara entre gestão, orçamento, elenco e desempenho. Houve investimento pesado, mas sustentado por receitas reais. O clube passou a operar com planejamento, governança e ambição esportiva alinhadas. O resultado foi domínio esportivo, títulos expressivos e consolidação de uma marca global.
É nesse contexto que surge, a partir de 2020, a discussão sobre a SAF — Sociedade Anônima do Futebol. A SAF é, em essência, a transformação do departamento de futebol em uma empresa, com CNPJ próprio, regras de governança, possibilidade de investidores e separação parcial ou total do clube social. Um dos pontos centrais desse modelo está no tratamento das dívidas: elas podem ser organizadas em regimes específicos de pagamento, com prazos longos e fiscalização, permitindo que o futebol volte a ser operacionalmente viável.
Em Minas Gerais, dois exemplos ajudam a ilustrar caminhos distintos. No Atlético-MG, empresários profundamente ligados ao clube decidiram investir no projeto da SAF, alcançando grande sucesso esportivo em 2021. Com o tempo, porém, a lógica empresarial começou a se impor: aportes não são infinitos, despesas precisam caber nas receitas e paixão não substitui gestão. No Cruzeiro, sob nova administração, os investimentos foram fundamentais para a reconstrução esportiva, mas o próprio mercado indica que, com regras de fair play financeiro e racionalidade econômica, esses aportes tendem a diminuir à medida que o clube se estabiliza.
A SAF, no fim das contas, não é solução mágica. Ela apenas explicita uma regra básica da economia que o futebol brasileiro insistiu em ignorar por décadas: receitas precisam ser maiores que despesas. Nesse ponto, o Flamengo, mesmo sendo um clube associativo, talvez seja o maior exemplo contemporâneo. Mostra que, com governança, planejamento e profissionais qualificados, é possível competir em alto nível sem depender eternamente de mecenas ou de reestruturações traumáticas.
Recentemente, a apresentação de resultados feita pelo atual presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, o Bap, foi uma verdadeira aula de gestão esportiva. Entre os pontos centrais de sua fala estiveram a previsibilidade orçamentária, o controle rigoroso de custos, a importância da governança, a separação clara entre emoção e decisão empresarial e a noção de que sucesso esportivo sustentável é consequência — não causa — de uma boa administração.
O debate entre SAF e clubes associativos não deve ser tratado como uma disputa ideológica. Trata-se, antes, de entender modelos, limites e responsabilidades. O futebol brasileiro está, finalmente, aprendendo que paixão não paga contas. Gestão paga. E quem compreender isso primeiro terá vantagem competitiva por muitos anos.