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Sócio hoje, problema pessoal amanhã

Colunista: Thais Almeida

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Quando uma sociedade mal combinada ameaça o patrimônio e a família do empresário

Você confiaria ao seu sócio o poder de decidir o futuro financeiro da sua família? Pense antes de responder.

Eu não estou perguntando se você confia nele. Provavelmente confia. Afinal, ninguém começa uma sociedade imaginando que aquela pessoa vai se tornar um problema alguns anos depois.

A pergunta é outra:

A sua sociedade está preparada para o dia em que um dos sócios não puder, não quiser ou não conseguir mais continuar?

É aí que muita coisa muda.

Há 24 anos trabalhando com empresários do mercado fitness, vejo o setor discutir muito bem vendas, marketing, gestão e crescimento. Precisamos falar sobre tudo isso. Mas existe uma pessoa que, muitas vezes, fica esquecida nessa conversa: o próprio empresário.

É ele quem colocou dinheiro no negócio, assumiu risco, assinou contratos e passou anos construindo a empresa. E como está a vida financeira dessa pessoa?

Vejo empresários construindo academias valiosas enquanto praticamente todo o patrimônio pessoal continua concentrado dentro do negócio. A academia cresce. Compra equipamento. Abre uma nova unidade. Reinveste novamente. No CPF, quase nada.

Parece uma boa estratégia enquanto tudo está funcionando. O problema aparece quando algo muda. E alguma coisa, em algum momento, muda.

Sociedade é como casamento. E confiança não substitui regra

Eu costumo dizer que sociedade é muito parecida com casamento. Você entra porque confia na outra pessoa. Tem planos, expectativas e acredita que aquela relação vai durar. Só que confiança não elimina a necessidade de combinar as regras.

Eu sou muito prática com isso. Tenho uma frase que repito bastante: se não está escrito, não existe. A memória falha. As pessoas mudam. As circunstâncias mudam.

“Mas ele falou que faria.” “Eu tinha entendido de outra forma.” “Quando começamos a empresa, combinamos assim.”

Cinco anos depois, ninguém lembra exatamente o que foi dito. Em sociedade, acordo de boca é um risco desnecessário.

E nem todo problema societário nasce de desonestidade. Acho importante falar isso porque, quando tratamos de proteção societária, parece que estamos desconfiando do sócio. Não tem nada a ver com isso.

Seu sócio pode adoecer. Pode falecer. Pode se divorciar. Pode mudar de cidade. Pode decidir que não quer mais trabalhar naquela empresa. Pode precisar de dinheiro. Pode simplesmente mudar de projeto de vida. Nós somos humanos.

O problema começa quando nenhuma dessas possibilidades foi discutida antes. Na crise aparecem emoção, urgência e pressão financeira. É o pior momento para decidir as regras.

Quando o problema do CNPJ chega à mesa da família

Existe outro erro muito comum: acreditar que os problemas da empresa ficarão sempre dentro da empresa. Na prática, não funciona dessa forma.

Eu já acompanhei situações em que problemas empresariais atingiram diretamente a casa dos donos. Família precisando vender patrimônio. Conta pessoal bloqueada por uma questão envolvendo uma empresa antiga. Empresário colocando dinheiro da família dentro de uma operação que já estava com dificuldades.

Já vi também conflito entre marido e mulher porque um deles decidiu pegar recursos da família para colocar novamente no negócio.

O empresário pensa: “Preciso salvar a empresa”. O cônjuge pensa: “Até onde vamos colocar nossa casa em risco?” Os dois têm razões para estar preocupados. É por isso que eu bato tanto nessa tecla: a família precisa ter uma estrutura financeira própria.

Se a academia passar por três meses ruins, a reserva da família não pode desaparecer junto. Se a empresa precisar de capital, não deveria ser automático pegar todo o dinheiro que estava separado para a segurança da casa.

Se você tem uma dívida empresarial com garantia pessoal, precisa saber exatamente quanto é, qual o prazo e qual patrimônio está exposto. Parece básico. Mas não é o que eu encontro todos os dias.

Sua academia pode valer milhões e você continuar sem dinheiro

Esse é um conceito que todo empresário precisa entender:

Valor e liquidez são coisas diferentes.

Vamos imaginar uma situação: Carlos e Marcelo são sócios de uma academia. Cada um possui 50%. Carlos cuida da operação. Marcelo cuida da área financeira. A academia está saudável e tem R$ 400 mil em caixa. Ótimo!

Só que o contrato entre os sócios é genérico. Eles nunca definiram claramente como calcular o valor da empresa caso alguém precisasse sair.

Marcelo falece. A família acredita que os 50% de Marcelo valem R$ 1,5 milhão. Carlos entende que aquela participação vale R$ 500 mil. Quem está certo? Esse já seria um problema grande. Mas existe outro!

Vamos supor que eles cheguem a um acordo e concluam que a participação vale R$ 500 mil. A empresa tem R$ 400 mil em caixa. Se Carlos utilizar praticamente todo o caixa para pagar a família de Marcelo, o que acontece com salários, impostos, fornecedores e capital de giro?

Percebe o problema? Uma academia pode valer R$ 3 milhões e não ter R$ 3 milhões disponíveis. Equipamento não é dinheiro na conta. Marca não é dinheiro na conta. Carteira de clientes não é dinheiro na conta. Tudo isso pode ter valor. Mas, na hora de uma crise, liquidez é dinheiro disponível.

Já encontrei empresários que dizem: “Minha academia vale R$ 2 milhões”. Quando vamos olhar a vida financeira pessoal, praticamente todo o patrimônio está lá dentro.

Então faço uma pergunta simples: Se você precisar de R$ 300 mil nos próximos 30 dias, de onde vai sair? É nessa hora que a realidade aparece.

O que acontece se o seu sócio simplesmente quiser ir embora?

Morte chama atenção porque é uma situação extrema. Mas existem vários outros pontos de estresse. Um deles é a saída voluntária. Seu sócio chega amanhã e diz: “Não quero mais. Quero vender minha parte.” E agora?

Quanto vale a participação dele? Quem pode comprar? Ele pode vender para qualquer pessoa? Você é obrigado a aceitar um novo sócio? O pagamento será à vista? Parcelado? E existe uma pergunta ainda mais interessante: Ele pode abrir outra academia na mesma região depois de sair?

Essas conversas parecem exageradas enquanto todos estão felizes. Quando o conflito começa, elas passam a ser urgentes.

O mesmo vale para os papéis dentro da empresa. Eu já tive sociedade em que o outro sócio simplesmente não tinha a mesma dedicação. Eu estava trabalhando desde cedo e a outra pessoa aparecia quando queria. Esse tipo de diferença vai criando desgaste.

Por isso precisa estar claro: quem cuida do quê? Qual a dedicação esperada? Como será o pró-labore? Como funcionará a distribuição de lucro? Quanto será reinvestido? Imagine uma academia crescendo.

Um sócio quer abrir a segunda unidade. O outro não quer. Ele prefere distribuir o lucro e começar a construir patrimônio fora da empresa. Quem está certo? Os dois podem estar. O problema é nunca terem discutido isso.

Quanto vale a sua empresa? “Acho que vale” não serve

Outra conversa que o empresário costuma evitar é valuation. Vejo muita gente definindo o valor da própria empresa pelo dinheiro que já colocou nela. “Gastei R$ 1 milhão em equipamento, então minha academia vale R$ 2 milhões.” Não funciona dessa forma.

Equipamentos contam. A marca conta. A carteira de clientes conta. A capacidade de geração de resultado também.

Uma empresa com faturamento alto e despesas enormes possui uma realidade diferente de outra que fatura menos e mantém uma margem muito melhor.

O pior momento para começar a discutir valuation é quando um sócio já decidiu sair. Porque acontece algo absolutamente previsível. Quem está vendendo quer valorizar. Quem está comprando quer pagar menos. A discussão já começa contaminada. Por isso alguns critérios precisam ser definidos enquanto os interesses ainda estão alinhados.

A empresa precisa gerar patrimônio para o empresário

Aqui entramos no ponto que mais me preocupa!

Durante muito tempo, o mercado ensinou o dono da academia a reinvestir: reinvista para crescer. Compre equipamento. Amplie. Abra outra unidade. Tudo isso pode fazer sentido.

Mas existe uma pergunta que quase ninguém faz:

Em que momento esse negócio começa a construir patrimônio para você e para sua família?

Porque existe uma diferença enorme entre ter uma academia como patrimônio e ter uma academia que gera patrimônio. Se todo o lucro volta para a empresa, ano após ano, você pode chegar a uma situação curiosa: um CNPJ milionário e uma pessoa física sem liquidez. E eu vejo isso acontecer.

Já encontrei academias com patrimônio estimado em R$ 5 milhões, R$ 7 milhões, mas que, em uma situação de encerramento, teriam de pagar dívidas, fornecedores e rescisões. Quando você começa a fazer essa conta, o número que parecia patrimônio pessoal muda bastante.

A empresa precisa crescer, mas o empresário também precisa crescer financeiramente. Isso significa construir reserva familiar, formar patrimônio fora do negócio e ter mecanismos de proteção para os riscos que poderiam interromper sua renda. Significa também saber onde estão as garantias pessoais dadas para as dívidas da empresa.

Se você colocou sua casa como garantia de uma operação empresarial, por exemplo, precisa ter plena consciência de que existe uma ligação direta entre aquela decisão do CNPJ e o patrimônio da família. Não dá para fingir que são mundos completamente separados.

E se amanhã você não puder atender o telefone?

Tem uma pergunta simples que faço aos empresários: Se amanhã você não puder atender o telefone, alguém sabe o que fazer? Onde estão os contratos? Quem tem acesso às contas? Onde estão as apólices? Quem conhece as senhas e os principais compromissos? Quem sabe quais dívidas existem?

Em muitas empresas, tudo está concentrado em uma única pessoa. Um sócio domina a operação. O outro sabe toda a parte financeira. Enquanto os dois estão presentes, funciona. Basta um deles faltar para perceberem o tamanho da dependência.

Na nossa estrutura, por exemplo, documentos importantes e acessos precisam estar organizados em local conhecido pelas pessoas responsáveis. Não faz sentido o sócio descobrir no meio de uma emergência que ninguém consegue sequer entrar na conta bancária da empresa. Organização também é proteção.

A conversa que precisa acontecer agora

Se você tem sócio, sente com ele. Não espere aparecer um problema. Conversem sobre saída. Conversem sobre morte ou incapacidade. Definam como a empresa será avaliada. Vejam se existe dinheiro ou alguma estrutura financeira para enfrentar uma dessas situações sem destruir o caixa.

Depois, olhe para fora da empresa. Quanto sua família custa por mês? Se você passar seis meses sem fazer retiradas, consegue manter sua casa? Quanto do seu patrimônio está concentrado na academia? Você tem investimentos fora dela? Seu cônjuge sabe onde estão seus documentos e seguros?

Essas perguntas incomodam. Melhor assim. Eu prefiro uma conversa desconfortável hoje do que uma família desesperada amanhã.

Passei mais de duas décadas vendo empresários do mercado fitness construírem negócios incríveis. Também vi famílias se tornarem reféns dessas mesmas empresas. Por isso mudei a pergunta. Eu não quero saber apenas quanto sua academia cresceu. Quero saber se você ficou financeiramente mais forte enquanto ela crescia.

Sua empresa pode ser uma grande ferramenta de prosperidade. Mas ela precisa estar a serviço da sua família, e não transformar sua família em refém do negócio.

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