Sou professor concursado na Secretaria Municipal do Rio de Janeiro e, conversando com uma professora – Shirlei Oliveira – também concursada, o tema foi a respeito de como a educação pública mudou. Abaixo a visão dela:
“Existem muitas vertentes que acreditam em excesso de telas, crescimento dos números de transtornos, entre outros, assim como alguns atribuem à LDB que ampliou a “contagem do tempo” do processo de alfabetização. Alguns podem lembrar que existia, nas escolas, a Classe de Alfabetização (C.A.), que tinha como foco principal o processo de alfabetização dos alunos (como o próprio nome propõe). Anos depois, com o estudo mais aprofundado sobre educação e divulgação das propostas da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, esse processo teve início no 1º ano do Ensino Fundamental, mas não se encerra mais nessa Classe. Agora podemos ampliar esse processo até o 3º ano, onde tecnicamente o aluno já dispõe de habilidades necessárias para ser considerado alfabetizado.
Aí iniciamos a história: com a ampliação desse processo de alfabetização também foi questionada a validade da reprovação desses alunos, afinal, podemos reprovar um aluno que ainda não tem as estruturas necessárias para realizar a leitura de palavras simples no 1º ou 2º ano? Logo, a aprovação automática entra em debate e leva professor e aluno a uma real “sinuca de bico”. “Preciso estudar pra passar de ano?” “Devo reprovar esse aluno que ainda não sabe ler se o processo de alfabetização dele ainda não está consolidado?”
Sem atribuir a essa discussão de justiça ou injustiça, vamos ao fato! Ao mesmo tempo em que a aprovação automática respeita o tempo desse aluno que ainda está consolidando sua alfabetização, ela deixa escorrer o “mérito das coisas”. Então podemos simplesmente passar o ano todo “tirando zero” que, ao final do ano, me considero aprovado?
A aprovação automática funcionaria muito bem num modelo educacional de provas adaptadas, de amparo à criança com dificuldade ou vulnerabilidades, mas nosso modelo educacional é homogêneo, quando deveria ser heterogêneo e tratar cada indivíduo como único sem considerar somente sua necessidade de aprovação para um próximo segmento, mas também suas carências e compreender que, sem as estruturas e habilidades para a próxima etapa, somente aprovamos a exclusão. Alunos que poderiam ver na reprovação uma nova chance para trilhar um caminho estratégico, recalcular sua rota e adquirir habilidades necessárias para a próxima etapa! Será que estamos aprovando o desamparo? Será que é justo? Bom, essas perguntas são ainda muito sensíveis, mas logo virão à tona novamente e nos encontraremos no mesmo debate, como moscas em volta da lâmpada. Antes de pensarmos em níveis de aprovação ou resultado precisamos entender a educação como talvez o único meio de transformação social de muitas pessoas e aceitar que esse processo precisa ser feito com respeito, dignidade e seriedade.”



