O mercado brasileiro de academias entra em uma nova etapa de crescimento. Depois de anos marcados pela abertura de unidades, avanço de redes e diversificação de formatos, a expansão passa a depender cada vez mais da capacidade das empresas de ganhar escala com eficiência, reduzir evasão, ampliar recorrência e alcançar consumidores que ainda permanecem fora do mercado.
Essa é uma das conclusões de um estudo conduzido pelo grupo Bittencourt sobre a transformação do setor fitness e de wellness no Brasil. A análise mostra que a disputa deixou de estar concentrada apenas em localização, preço e número de unidades e passou a envolver governança, tecnologia, conhecimento do consumidor, novos serviços, modelos de franquia e acesso a capital.
A análise foi construída a partir de entrevistas realizadas com executivos da Gaviões Academia, Panobianco e Grupo Ultra Franquias durante a ABF Franchising Expo 2026, combinadas à leitura de indicadores de mercado, movimentações de fusões e aquisições, dados sobre wellness e informações setoriais. A partir desse conjunto, o estudo identificou que a disputa no setor deixa de estar concentrada apenas na abertura de unidades e passa a envolver a capacidade de sustentar o crescimento com escala, eficiência operacional e maior conhecimento do consumidor.
Investimento no setor
A entrada de investidores e o aumento das operações de fusões e aquisições ajudam a demonstrar essa mudança. Segundo levantamento do banco de investimentos Houlihan Lokey, com dados da S&P Capital IQ, o mercado fitness registrou 115 operações de fusões e aquisições em 2024, que movimentaram US$ 4,5 bilhões, e outras 102 em 2025, com US$ 3,2 bilhões.
O movimento reforça um processo de consolidação em que capacidade de expansão, profissionalização da gestão e eficiência operacional passam a ter peso crescente.
Para redes que buscam ganhar mercado, crescer deixou de significar apenas adicionar unidades. A questão passa a ser como transformar escala em rentabilidade, recorrência e diferenciação.
As franquias participam diretamente desse movimento. Modelos distintos vêm sendo utilizados para acelerar capilaridade, adaptar operações a diferentes mercados e reduzir barreiras de expansão. Segundo a Associação Brasileira de Franchising (ABF), o segmento de Saúde, Beleza e Bem-Estar liderou o franchising brasileiro em 2025, com faturamento de R$ 74,3 bilhões e alta de 14,6%. A entidade não isola academias em sua pesquisa, e o número reúne outras atividades do mesmo bloco.
Uma das expoentes do setor é a Gaviões Academia, fundada em 1974, que entrou no franchising há cinco anos e estabeleceu, dentro do plano Legacy 2030, a meta de alcançar mil unidades no Brasil e no exterior. A Panobianco combina modelo de baixo custo com profissionalização da governança, uso de BI e inteligência artificial, experiência phygital e internacionalização. Já o Grupo Ultra Franquias, que declara ter quase 90% da rede franqueada, trabalha com adaptação de serviços e formatos ao perfil de renda e consumo de cada mercado.
Outro vetor importante é a ampliação da própria definição de mercado. Academias passam a competir dentro de um ecossistema mais amplo de saúde, longevidade e bem-estar. Segundo o Global Wellness Institute, a economia global de wellness movimentou US$ 6,8 trilhões em 2024, dos quais US$ 1,14 trilhão correspondem à atividade física, com projeção de alcançar US$ 9,8 trilhões em 2029.
Mudanças no comportamento de saúde também começam a criar novas demandas. O avanço dos medicamentos da classe GLP-1, por exemplo, aumenta a atenção para manutenção de massa muscular, força e saúde metabólica. Segundo pesquisa do Morgan Stanley, a parcela de usuários dessas medicações que se exercita com frequência sobe de 35% para 70% depois do início do tratamento.
Somente a partir desse ponto entram os indicadores de dimensão e penetração do mercado brasileiro.
O Brasil reúne 55.068 estabelecimentos de atividade física ativos, segundo a 5ª edição do Panorama Setorial Fitness Brasil. Apesar da expansão da oferta, a penetração permanece próxima de 7% da população. Nos Estados Unidos, chegou a 26,1% em 2025, segundo a Health & Fitness Association.
A diferença ajuda a dimensionar o potencial ainda existente para ampliar a base de praticantes, mas também evidencia o principal desafio das redes: converter oferta em adesão e frequência.
Esse cenário indica que o próximo ciclo do setor será menos determinado pela simples multiplicação de academias e mais pela capacidade de converter intenção em hábito, ampliar retenção, adaptar formatos e construir operações sustentáveis em escala.
Fontes citadas
- Associação Brasileira de Franchising (ABF). Pesquisa de Desempenho do Franchising 2025, divulgada em 2026.
- BITTENCOURT Cast. Entrevistas com Gaviões Academia, Panobianco e Grupo Ultra Franquias, gravadas na ABF Franchising Expo 2026. Números operacionais das redes são declarações dos próprios executivos.
- Health & Fitness Association. 2026 US Health & Fitness Consumer Report (dados de 2025).
- Global Wellness Institute. Global Wellness Economy Monitor 2025 (dados de 2024).
- Morgan Stanley Research / AlphaWise. Pesquisa sobre uso de GLP-1 e prática de exercício físico.
- Houlihan Lokey. Levantamento de fusões e aquisições no setor fitness, com dados da S&P Capital IQ (2026).
- Fitness Brasil. Panorama Setorial Fitness Brasil, 5ª edição (2026), com base em registros da Receita Federal e do CONFEF, e 4ª edição (2025, com dados de 2024).



