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O destaque da Educação Física no ecossistema do bem-estar

Colunista: Angelo Dias

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Chegamos ao fim da 21ª edição do Congresso Carioca de Educação Física e depois de ler sobre a qualidade do time de palestrantes e os mais de 30 temas apresentados no evento, veio a grata percepção de que a nossa profissão conquistou um papel de destaque no ecossistema do bem-estar.

O mercado de academias, saúde e bem-estar no Brasil está vivenciando a transformação mais profunda, madura e rentável de sua história. Se no passado a nossa indústria foi moldada e limitada pela sazonalidade – refém do famigerado “projeto verão” e de um apelo focado quase exclusivamente na estética corporal – hoje assistimos ao nascimento de uma nova era. Pós-pandemia, a busca por saúde e qualidade de vida lidera as visitas nos diferentes modelos de negócio fitness.

A Educação Física deixou de ser um artigo de consumo focado na vaidade passageira e consolidou-se como a ferramenta central da longevidade saudável, da gestão de saúde preventiva e da conexão humana.

Com mais de 60 mil empresas ativas no setor e o país figurando como o segundo maior mercado global em número de academias, o crescimento médio anual gira na faixa dos 14%. O dado mais revelador desse momento, contudo, é a mudança de paradigma do consumidor: pesquisas recentes do setor, como as apresentadas pela Fitness Brasil e IHRSA, apontam que a busca por saúde mental e qualidade de vida ultrapassou definitivamente a perda de peso e a estética corporal como as principais motivações de matrícula.

Para o empresário e o gestor do setor fitness, este cenário não é apenas animador, é um chamado estratégico para a diversificação de modelos de negócios e para a redefinição de quem é, de fato, o nosso cliente.

A hipersegmentação do mercado: academia para todo tipo de cliente

O perfil tradicional de cliente de academia – o jovem já ativo e focado em hipertrofia ou emagrecimento – ainda existe e tem seu lugar para treinar. No Brasil, estimativas históricas apontam uma taxa de penetração de academias na casa dos 7%, um número ainda distante dos quase 25% observados nos Estados Unidos. Essa disparidade não revela um fracasso, mas sim, uma enorme bolsa de oportunidade orgânica, uma vez que até o período pré-pandemia não conseguíamos sair dos 5%, desde a década de 80.

A fatia populacional que antes não se sentia acolhida nos grandes salões barulhentos e impessoais, agora encontrou o seu espaço. A resposta do mercado a essa demanda foi a hipersegmentação.

O fenômeno dos estúdios boutique e ambientes "high touch"

Enquanto grandes redes Low Cost – como a Smart Fit, que ultrapassou a marca de 1,7 mil unidades globalmente e fatura bilhões focando no modelo de volume e acessibilidade – democratizam o acesso, surge no polo oposto o ecossistema dos Estúdios Boutique e academias de nicho.

Marcas que operam modelos focados no conceito High Touch (alto contato humano e personalizada experiência) estão capturando uma fatia disposta a pagar mensalidades substancialmente maiores em troca de exclusividade. Exemplo claro dessa movimentação é o próprio ecossistema do grupo Smart Fit, ao investir na expansão da Bio Ritmo e de estúdios especializados como Velocity (bike indoor), Race Bootcamp e Vidya Yoga.

Outro caso emblemático é a ascensão de estúdios como a Simple Gym ou academias de altíssimo padrão como a Six Sport Life em São Paulo, onde o ticket médio se aproxima ou supera os quatro dígitos, ancorado em retenção, personalização e baixo nível de cancelamento (churn). Pessoas que buscam qualidade de vida, manejo de dores crônicas e envelhecimento funcional encontraram um estúdio focado para chamar de seu – um local onde o atendimento individualizado supera a frieza dos aparelhos e salas espelhadas.

A academia como o "Terceiro Lugar" do consumidor

Na sociologia urbana, o conceito de “Terceiro Lugar” (concebido pelo sociólogo Ray Oldenburg) define o espaço social neutro, além do lar (Primeiro Lugar) e do trabalho (Segundo Lugar), onde as pessoas se reúnem para conversar, relaxar e construir laços comunitários.

À medida que o trabalho remoto e a vida digital isolaram os indivíduos, o segmento fitness que melhor compreendeu o conceito de comunidade passou a liderar o mercado. As academias e estúdios modernos deixaram de vender apenas “acesso a equipamentos” para entregar fidelização pelo pertencimento.

A pesquisa Future of Wellness da consultoria internacional McKinsey corrobora essa mudança ao apontar que a busca por conexão e propósito é uma das forças motrizes do consumo atual. O aluno não frequenta mais o espaço apenas para treinar, ele frequenta pelo café pós-treino, pela interação com os professores e pelo grupo de amigos que formou.

Tabela 1. Dimensão estratégica vs. entrega em academias

O espetáculo do fitness além dos muros: corridas de rua e ativação de marcas

Se dentro das academias a experiência social é a chave, fora delas o movimento é uma verdadeira força cultural de massa. O mercado das corridas de rua atingiu patamares recordes de crescimento.

Dados apresentados no Summit Abraceo/CBAt (Confederação Brasileira de Atletismo) revelaram que o Brasil registrou mais de 5.200 corridas oficiais em um único ano – um um salto impressionante de mais de 85% em relação aos anos anteriores. O estado de São Paulo, por exemplo, superou a marca de 1.300 provas anuais.

Esse movimento massivo transformou as corridas em potentes plataformas de negócios para a Educação Física. Assessorias esportivas e grupos de corrida vinculados a academias tornaram-se ferramentas imbatíveis de captação e fidelização de clientes.

Além disso, grandes marcas de setores alheios ao fitness – de grandes bancos a seguradoras e indústrias farmacêuticas – estão direcionando verbas milionárias de marketing para patrocinar eventos esportivos de rua, visando associar suas imagens ao conceito de vida ativa e longevidade.

O profissional de Educação Física no ecossistema da saúde: do SUS à Medicina do Estilo de Vida

A consolidação do nosso “oceano azul” passa indiscutivelmente pela mudança de status da nossa profissão perante a comunidade médica e o sistema de saúde. O profissional de Educação Física deixou de ser visto como um mero “instrutor de exercícios” para assumir o papel estratégico de agente de saúde preventiva.

A Medicina do Estilo de Vida (MEV)

O crescimento exponencial da Medicina do Estilo de Vida – especialidade médica fundamentada no manejo de pilares como alimentação, sono, controle de estresse e, prioritariamente, exercício físico regular – redefiniu a relação entre médicos e profissionais de Educação Física.

Estudos globais e diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) reforçam de forma categórica que a inatividade física é responsável por uma parcela expressiva das mortes por doenças não transmissíveis (como hipertensão, diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares). Hoje, os médicos especialistas em MEV não apenas recomendam “fazer uma caminhada”, mas prescrevem a atividade física orientada por um profissional qualificado como intervenção terapêutica de primeira linha.

Inserção no SUS e Saúde Corporativa

  • Atenção Primária no SUS: a presença consolidada de profissionais de Educação Física nas equipes multidisciplinares da Atenção Primária do Sistema Único de Saúde (SUS) demonstrou redução direta no uso de medicamentos contínuos e nas internações por complicações de doenças crônicas, validando a eficácia econômica da prevenção.
  • Departamentos de Saúde Corporativa: as empresas corporativas finalmente entenderam que a ginástica laboral pontual não resolve o problema do sinistro de saúde. Hoje, gigantes do setor corporativo estruturam programas completos de gestão de estilo de vida com a participação de profissionais de Educação Física, resultando em quedas mensuráveis nos índices de absenteísmo, presenteísmo e nos custos das apólices de planos de saúde, além do crescimento de empresas como Wellhub e TotalPass atendendo aos colaboradores do mundo corporativo.

Longevidade criada na infância: percepção de valor da Educação Física Escolar

A ciência da longevidade provou que envelhecer com saúde aos 70 ou 80 anos é um processo que se inicia nas primeiras décadas de vida. É exatamente nesse ponto que a Educação Física Escolar ganha destaque inédito no debate científico e de gestão.

Pesquisas recentes sobre neurociência e desenvolvimento infantil têm correlacionado a alfabetização motora e a prática regular de esportes na infância com:

  1. Desenvolvimento cognitivo e rendimento escolar: crianças ativas apresentam melhoria na plasticidade cerebral, na capacidade de atenção e na regulação emocional.
  2. Prevenção da obesidade pediátrica: Em um cenário global onde os índices de sedentarismo e obesidade infantil assustam a OMS, a escola é o ambiente primário de intervenção.
  3. Construção do capital de saúde para o futuro: indivíduos que desenvolvem gosto e competência motora na infância possuem probabilidade substancialmente maior de se manterem adultos fisicamente ativos, aliviando a carga sobre o sistema de saúde no futuro.

A Educação Física Escolar deixa de ser uma disciplina secundária na grade curricular para se posicionar como o pilar fundamental de saúde pública da próxima geração.

Conclusão: é hora de liderar a Era do "Bem-Estar Humanizado"

Todas as evidências – dos relatórios financeiros das grandes redes aos números do SUS, dos estudos de neurociência aos indicadores das provas de rua – apontam para a mesma direção: estamos vivendo a era de ouro da nossa profissão.

O oceano azul está diante de nós. Mas navega melhor quem compreende que a tecnologia, os sistemas de gestão modernos e as estruturas impecáveis são apenas meios. O fim – e o verdadeiro diferencial de mercado do empresário fitness – é o acolhimento, a orientação técnica de excelência e a capacidade de transformar vidas de forma sustentável.

Para o profissional e o gestor que buscam liderar esse mercado nos próximos anos, a receita de sucesso da nossa coluna permanece clara: menos lógica de mercado frio, mais bem-estar genuíno e foco absoluto nas relações humanas.

 

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