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Treinar o músculo x treinar o movimento

Colunista: Mauro Guiselini

Mais recentemente, foram incluídos nas Academias, Studios, nas aulas personalizadas e coletivas, “novas modalidades de exercícios…”; opa! Não tão novas assim: Pilates, Yoga, Calistenia, Treinamento Intervalado são, sem dúvida, modalidades muito antigas, porém, renascem com uma nova abordagem.

Isto é, realmente fantástico, pois o considerado clássico é imorrivel – vide a música clássica, os pintores clássicos (Picasso, Leonardo da Vinci, Portinari, Van Goghi), escritores, todos transcenderam; Beatles, Elvis Presley, Rolling Stones (vivos, ainda na estrada), têm músicas remasterizadas, em novos formatos, enfim, graças à tecnologia e a qualidade, o tempo/espaço não apagam o que realmente é bom.

Aplicativos on-line

Programas de aptidão física, em particular aqueles elaborados para pessoas interessadas na prática do exercício físico relacionado à promoção da Saúde e Bem-Estar e Estética, disponibilizam modalidades de exercícios como Yoga, Pilates, Fitness Sênior e, mais recentemente, HIIT, CORE Training, Cross Fit, Cross Training, para atenderem alunos/clientes com diferentes objetivos.

Os programas on-line, aplicativos com exercícios calistênicos “body work”, são, sem dúvida, uma forma de treinar em casa, na praça, praia, em qualquer horário com poucos recursos e de baixo custo; uma alternativa muito útil para muitos que não frequentam as academias ou não têm um personal trainer para orientá-lo. É interessante observar que, segundo relatos, muitos praticantes que frequentam regularmente as academias também estão adquirindo esses aplicativos.

Os aplicativos on line também estão sendo oferecidos pelas academias, como um “bônus” especial, uma forma da manter a conectividade com seus alunos, oferecer mais opções de treinamento; sem dúvida uma grande sacada de marketing!

As academias que tradicionalmente eram construídas contendo salas de ginástica, musculação, piscina e quadras poliesportivas, estão ampliando a estrutura básica, ambientes especiais para a prática da Yoga, Alongamento e Relaxamento (sala zen), sala de spining com painéis que monitorizam individualmente cada aluno, espaço funcional com gaiolas e acessórios, Studio de Pilates, Box de Cross Fit, são novos espaços, construídos para atender às mais recentes tendências do mercado e interesse dos alunos.

Nos países mais “ricos”, podemos encontrar, nas academias, salas computadorizadas, painéis multicolores, equipamentos que simulam situações reais de esportes, a gamificação chegou no fitness com excelente tecnologia.

Além da construção de novos ambientes de treinamento, os alunos têm à sua disposição uma grande quantidade de acessórios: fit ball, balance disc, banda elástica, Bosu, overball, foam roller (rolo), escada de solo, plataformas de saltos, barreiras, cones, medicine ball, kettlebell que, associados às máquinas tradicionais de musculação e máquinas funcionais, propiciam uma grande quantidade de exercícios que trabalham os músculos de forma isolada ou global.

Com o surgimento desses novos equipamentos, espaços, técnicas de treinamento, publicações sobre as novas tendências, frequentemente os avaliadores e professores de academia são questionados sobre o que utilizar para tornar mais eficiente o seu treinamento ou mesmo se os exercícios tradicionais devem ser substituídos enfim, como deve ser montado um programa de treinamento diante de tantas novidades.

Mostrando um caminho

A prescrição de treinamento para o aluno que participa de aulas individualizadas ou em grupos deve ser baseada em evidências, ou seja, de acordo com os resultados obtidos na avaliação física e médica; na anamnese o aluno estabelece qual o seu(s) objetivo(s) a ser(em) alcançado(s) e, em seguida, realiza a avaliação médica (quando necessário ou mesmo na existência de doenças) e os testes para verificar o seu nível atual de aptidão física.

Além dos testes tradicionais para avaliar as capacidades biomotoras (resistência cardiorrespiratória, força e resistência muscular e flexibilidade), atualmente a Avaliação MultiFuncional passa a ser utilizada uma vez que avalia aspectos relacionados à qualidade de movimento incluindo a mobilidade, estabilidade, assimetria muscular, identificando os possíveis déficits de movimento.

Após identificar a meta/objetivo, o nível de aptidão física e os possíveis déficits de movimento – que determinam as necessidades (inclusão de exercícios corretivos) – o próximo passo é escolher os exercícios e métodos de treinamento mais adequados, que mais rapidamente fazem com que o aluno/cliente alcance o esperado.

Compatibilizar as metas/objetivos com as necessidades e, por sua vez, a escolha de estratégias (meios + métodos de treinamento + relacionamento com acolhimento e conectividade) é, sem dúvida, o caminho do sucesso. Encontrar as estratégias vencedoras é o que a academia, personal trainers, treinador, coaching, pretendem: uma busca contínua pela fórmula do sucess, contando, sem dúvida, com a valiosa ajuda do marketing digital… quem não quer ter um “produto de resultado”?

A controvérsia: treinar o músculo ou o movimento?

Treinar o músculo ou treinar o movimento é a grande discussão do momento: fortalecer o músculo de forma isolada, como por exemplo, “fazer a rosca concentrada” ou de forma global, como por exemplo, “fazer o avanço com medicine ball”!

Na realidade, treinar o movimento sem a participação do sistema muscularticular é impossível! E treinar o músculo sem ocorrer movimento, também não é possível, mesmo nas contrações isométricas ocorre movimento não observável. Entenda que esse paradoxo é muito mais pedagógico do que fisiológico/biomecânico e, até mesmo uma questão filosófica de metodologia de treinamento.

Vamos analisar de forma prática esta questão treinar o músculo x treinar o movimento, é assim que se constrói uma proposta metodológica!

Não confundir “forma” com “função”

Treinamento com pesos, com isolamento muscular, exercícios que priorizam o efeito localizado, são muito praticados por pessoas interessadas em construir músculos fortes, bem delineados, aumentar a massa muscular e simetria com objetivos estéticos. Este é o principal objetivo para muitos que desejam mudar a aparência física; o foco é na forma. (Figura 1)

Figura 1. Treinando a "forma" do músculo

Sem dúvidas, objetivos relacionados à estética corporal são o desejo de cerca de 60% a 80% dos ingressantes nos programas de treinamento no mundo fitness. Esse desejo explica a grande procura por treinamento com foco na hipertrofia, combinado com orientação nutricional, entre outros procedimentos.

Na prática, no mudo real de movimento – dança, lutas, artes marciais, esporte (de lazer e alta performance) e atividades cotidianas todas – dependem da combinação de vários movimentos, realizados em dois ou mais planos; as capacidades biomotoras, coordenação motora, mobilidade/flexibilidade, equilíbrio/ estabilidade, força, resistência aeróbia/anaeróbia e, especificamente, no caso dos esportes, a velocidade, agilidade e potência são fundamentais para o sucesso.

Para estar adaptado ao mundo real de movimento, o objetivo do treinamento não é só mudar a forma do corpo, mais músculos e menos gordura, mas sim como aumentar a capacidade do corpo de se movimentar bem; habilidades motoras e capacidades biomotoras são treinadas de forma integrada – treinamento multicomponente, multifuncional, multimodal, com multitarefas – para melhorar a funcionalidade; o foco é na função! (Figura 2)

Figura 2. Treinando a "função" do músculo

Isto significa que o profissional, para elaborar um programa de treinamento, deve ter muito claro qual é “o mundo real de movimento” do seu aluno/cliente, no caso do Personal Trainer, ou do atleta, quando no esporte de alto rendimento.

Muitas atividades de condicionamento físico, esportes e recreação, realizadas por idosos, jovens, donas de casa ou atletas, têm as mesmas habilidades motoras. O agachamento, por exemplo, é realizado por todos, em diferentes situações e intensidade, no entanto, a habilidade motora “agachar” é realizada de acordo com um padrão básico de movimento, o cérebro recebe a informação do padrão de movimento a ser elaborado e cria uma coordenação entre os músculos necessários para tal tarefa, isto é chamado de programa motor. (Figura 3)

Figura 3. Agachamento em diferentes atividades

Isto significa que o agachamento é realizado para “melhorar a forma de agachar”, com mais controle e precisão e, ao mesmo tempo, fortalece os músculos da cadeia cinética envolvida na sua realização; força de resistência muscular, mobilidade, estabilidade, coordenação motora e consciência corporal são as principais capacidades desenvolvidas durante o treinamento.

O que o profissional precisa compreender

Este é o ponto fundamental que deve ser compreendido pelos profissionais, ou seja, a diferença entre forma e função: os exercícios de isolamento muscular, muito embora exista um programa motor, como por exemplo, para realizar a rosca direta, não têm como objetivo o padrão básico de movimento global e sim no aprendizado do movimento (exercício) que prioriza o fortalecimento dos músculos flexores do cotovelo.

Recomendamos que o programa de treinamento seja elaborado tendo como ponto principal o objetivo do aluno e, a partir daí, combinar diferentes técnicas de exercícios incluindo os denominados isolados e globais. Esta é a mais nova tendência: combinar técnicas!

Referências bibliográficas

  1. Aeberg E. Resistance Training Instructor. 2ª Ed. Champaign: Human Kinetics;2007
  2. Boyle M. Functional Training for Sports. Champaing, IL: Human Kinetics, 2004.
  3. Check, P. Scientific Core Conditioning. Check Institute: Vista (CA), 2005.
  4. Guiselini, M. e Guiselini, R. Treinamento Funcional & CORE. Instituto Mauro Guiselini: São Paulo, 2010.
  5. Hamill, J. e Knutzen, M.K. Bases Biomecânicas do Movimento Humano. 2ª. Ed. Editora Manole: São Paulo, 2008.
  6. Jarmey, C. Músculos: uma abordagem concisa. Editora Manole. São Paulo, 2008.
  7. Lippert, L.S. Cinesiologia Clínica e Anatomia. 4ª. Ed. Editora Guanabara Koogan: Rio de Janeiro, 2006.
  8. Valerius, H.P. et al. O Livro dos Músculos: anatomia funcional dos músculos do aparelho Locomotor.Editora Manole: São Paulo, 2005.
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